O conceito de Páscoa

artigo, educação

Para gente pequena

 

A professora, naquela turma que tantas vezes nos faz sorrir e desesperar, perguntou:

 

— O que é que se celebra na Páscoa?

Alheios a qualquer intervenção da nossa parte e convictos das suas respostas, fez-se ouvir:

— São Pedro!

— São João.

— Já sei, é o Santo António.

Esqueceram o meu “São Paulo”, mas tudo bem. Afinal, não faz parte dos Santos populares portugueses.

Já Jesus, segundo eles, foi uma pessoa boa (“Coitadinho dele!” – disseram) pois rendeu-se.

Os Fortes ou Os Fracos?

diário, escrita, reflexão

      Nunca escondi que em criança e adolescente fui vítima de bullying. Na altura, tal não tinha nome. Quantas vezes, em algumas situações, na escola, adultos, regra geral homens nos seus 40-50 anos, fingiam não ver os abusos dos outros alunos? E riam… Recordar ainda dói.

      Compreendo que muitas eram as minhas diferenças: aspeto totalmente nórdico, gordo, bom aluno, não sabia (nem sei!) jogar futebol, preferia as músicas e filmes desconhecidos pela maioria, gostava de ler, brincava com as meninas e com os mais pobres ou ricos, tinha vocação para o teatro e escrita e nenhuma tendência para educação física ou madeiras (que horror!). Adorava perfumes (ainda gosto), viajava por mundos fictícios e compreendia os problemas mais complexos dos amigos. Os meus pais trabalhavam e quando comprava roupas, estas eram de qualidade (não se leia de marca e com frequência, mas as necessárias). Naqueles tempos, poucos eram os pais que trabalhavam. Regra geral, a mãe cuidava da casa.

     Na adolescência, sem entender, e graças a um artigo de uma revista recém chegada a Portugal, compreendi que estava a ser sexualmente assediado, com uma prima, durante a aula de madeiras. Conseguimos nada sofrer, a não ser uma nota nota negativa no 2.º período. Não a mantivemos no 3.º porque conseguimos a nota máxima na disciplina com a qual aquela fazia média. Tanto há a dizer…

      Como professor, foi na passada quinta-feira que fomos alertados, na nossa sala de aula, por duas auxiliares, para o comportamento de dois alunos durante o intervalo de dez minutos. Congelei e senti-me a arder. Crianças de 8 e 9 anos colocaram a cabeça na sanita de um menino de 6. Como se não bastasse, seguiu-se um pé. Outro aluno, da mesma turma, assistiu a tudo e nada disse. Queria congratular-se culpando, em primeira mão, os colegas.

      Interrogo-me, qual é o futuro da humanidade? Ah, estes meninos não têm problemas familiares, não vivem em bairros sociais nem são carenciados.

 

A comida mastigada

diário, humor, memórias

— O que é a combustão?

— É comer comida mastigada! – respondeu o aluno, tendo entendido, pensamos nós, “mastigação” no lugar de “combustão”.

 

Um dia “pingado”

humor, memórias

A atividade consistia em encontrar sinónimos de determinadas palavras.

Perante a frase “Estava um dia molhado“, com a maior das certezas, o aluno em voz alta respondeu: “Estava um dia pingado

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A dimensão das saudades do M.

diário, escrita, reflexão

   Durante a aula, numa das minhas procuras pelo equilíbrio que só aquele anjo me proporciona, desafiei o M.

— Tens muitas saudades do pai?

— Claro. Ele está tão longe! Não o posso dividir contigo, mas posso ser teu irmão e dividimos o meu quarto.

— Ok, fico muito contente. Como sabes, o professor já não tem pai e é sempre bom ter um irmão, mas podes continuar com o teu quarto tal e qual como está.  (Ele sorriu!) Somos irmãos e amigos. Eu tenho de continuar na minha casa pois cuido da minha mãe e avó. Sabes, quando mais novo do que tu, também o meu pai esteve no estrangeiro, pelo que sei o que sentes. Sempre que pretendas podes escrever uma mensagem ao professor. Se pudesses quantificar, qual o tamanho ou a dimensão das tuas saudades?

M. não respondeu e regressou à leitura do livro.

— Então, não respondes à pergunta do professor?

Não sei responder! – disse com uma expressão triste por não conseguir satisfazer o que lhe pedira.

— Porquê?

— Então, elas são tantas que não tenho braços do tamanho dessas saudades.

Senti-me comovido com aquelas palavras, raras nos nossos dias. Contive uma lágrima, um forte abraço e um beijo na testa. Infelizmente, nos nossos dias, neste país, qualquer gesto pode ser confundido com pedofilia.

— Dizes coisas tão bonitas M.! O pai também tem saudades tuas e podes sempre “matá-las” pelo Skype. Espero que a vida te mantenha assim, doce, criativo e meigo.

   Pena a vida ser cruel e não podermos acompanhar as transformações das nossas crianças/adolescentes.

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Foto de Pixabay