O Sonhos Desencontrados nunca foi um projeto. Nasceu como consequência dos tempos encantados de partilha e respeito na blogosfera. O meu primeiro espaço perdi-o para a microsoft. Nas Minhas Gavetas, assim se chamava. O meu melhor blogue de sempre.

É chegado o momento de por um ponto final neste blogue. Quem sabe dar um tempo…

Atualmente, estou em Insensato

Lá espero por vocês. Serão sempre bem-vindos.

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diário

Cuidadores sempre sós

diário

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Não é fácil.

Ninguém disse que seria fácil, mas também ninguém disse que seria tão difícil.

Patético. Tudo soa a patético.

O avançar da Doença de Alzheimer que afeta a minha avó, há 6 anos, destrói pedaços da minha mãe, principal cuidadora e meus. Subitamente, deparamo-nos com um ente querido que não sabe o nosso nome ou quem somos (o menos importante), não identifica a localização de uma dor, é capaz de passar 3 dias sem dormir, quando dorme, … parece um morto. As faculdades vão desaparecendo e nós, impotentes. O mesmo se passou com o cancro do meu pai: impotentes.

A ambos de nada adianta a medicação para a ansiedade ou para dormir. Há muito que o thriller começou e quando vislumbramos o horizonte, espelha-se um medo maior.

Sonhos Desencontrados

diário, fotografia

Cada dia que passa, constato e vejo-me obrigado a assumir os meus sonhos desencontrados.

Relativamente a este espaço, creio ter findado a sua validade. Mas sou feito de incertezas…

Chove by Paulo Vasco

Momento

diário, escrita, memórias

 

Quantas vezes acordo e penso que tudo não passou de um pesadelo. Logo a realidade é chamada a mim.

Efémera existência.

Dura realidade.

Caminho rumo à solidão de dias incógnitos e assustadores.

Assim…

 

 

Prometo não falar de amor de gostar e sentir

Portanto não vou rimar com dor um mentir

Joga-se pelo prazer de jogar e até perder

Invadem-se espaços trocam-se beijos sem escolher

Homens temporariamente sós / que cabeças no ar

 

 

Não retratos de solidão interior

Não há qualquer tragédia / Mas um vinho a beber

Partidas regressos conquistas a fazer

Tudo anotado numa memória que quer esquecer

 

 

Homens sempre sós preferem perder

 

 

Homens sempre sós são bolas de ténis no ar

Muito abatidos saltam e acabam por enganar

Homens sempre sós nunca conseguem casar

Os Fortes ou Os Fracos?

diário, escrita, reflexão

      Nunca escondi que em criança e adolescente fui vítima de bullying. Na altura, tal não tinha nome. Quantas vezes, em algumas situações, na escola, adultos, regra geral homens nos seus 40-50 anos, fingiam não ver os abusos dos outros alunos? E riam… Recordar ainda dói.

      Compreendo que muitas eram as minhas diferenças: aspeto totalmente nórdico, gordo, bom aluno, não sabia (nem sei!) jogar futebol, preferia as músicas e filmes desconhecidos pela maioria, gostava de ler, brincava com as meninas e com os mais pobres ou ricos, tinha vocação para o teatro e escrita e nenhuma tendência para educação física ou madeiras (que horror!). Adorava perfumes (ainda gosto), viajava por mundos fictícios e compreendia os problemas mais complexos dos amigos. Os meus pais trabalhavam e quando comprava roupas, estas eram de qualidade (não se leia de marca e com frequência, mas as necessárias). Naqueles tempos, poucos eram os pais que trabalhavam. Regra geral, a mãe cuidava da casa.

     Na adolescência, sem entender, e graças a um artigo de uma revista recém chegada a Portugal, compreendi que estava a ser sexualmente assediado, com uma prima, durante a aula de madeiras. Conseguimos nada sofrer, a não ser uma nota nota negativa no 2.º período. Não a mantivemos no 3.º porque conseguimos a nota máxima na disciplina com a qual aquela fazia média. Tanto há a dizer…

      Como professor, foi na passada quinta-feira que fomos alertados, na nossa sala de aula, por duas auxiliares, para o comportamento de dois alunos durante o intervalo de dez minutos. Congelei e senti-me a arder. Crianças de 8 e 9 anos colocaram a cabeça na sanita de um menino de 6. Como se não bastasse, seguiu-se um pé. Outro aluno, da mesma turma, assistiu a tudo e nada disse. Queria congratular-se culpando, em primeira mão, os colegas.

      Interrogo-me, qual é o futuro da humanidade? Ah, estes meninos não têm problemas familiares, não vivem em bairros sociais nem são carenciados.

 

Inspiro.

Sou invadido por receios e incertezas que parecem percorrer, inclusive, o diafragma. Ultimamente, dormir não tem sido fácil. Confiar no futuro também não.

Os meus pensamentos têm sido invadidos por questões de puro existencialismo. Por muito que me esforce, continuo sem entender qual é a nossa missão no mundo, o que nos traz, o que nos leva, onde começa e onde acaba a essência de cada um de nós. Por vezes, a falta de fé assusta-me. Poderá a Bíblia ter sido escrita por grandes pensadores?

Constato que, caso a vida siga o seu percurso “normal”, um dia ficarei sozinho neste mundo cheio de gente. Sem armas, desprotegido, fruto de uma adolescência que não pedi.

Qual é o sentido e o significado que se deve impor ou desejar da vida?

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A comida mastigada

diário, humor, memórias

— O que é a combustão?

— É comer comida mastigada! – respondeu o aluno, tendo entendido, pensamos nós, “mastigação” no lugar de “combustão”.

 

A dimensão das saudades do M.

diário, escrita, reflexão

   Durante a aula, numa das minhas procuras pelo equilíbrio que só aquele anjo me proporciona, desafiei o M.

— Tens muitas saudades do pai?

— Claro. Ele está tão longe! Não o posso dividir contigo, mas posso ser teu irmão e dividimos o meu quarto.

— Ok, fico muito contente. Como sabes, o professor já não tem pai e é sempre bom ter um irmão, mas podes continuar com o teu quarto tal e qual como está.  (Ele sorriu!) Somos irmãos e amigos. Eu tenho de continuar na minha casa pois cuido da minha mãe e avó. Sabes, quando mais novo do que tu, também o meu pai esteve no estrangeiro, pelo que sei o que sentes. Sempre que pretendas podes escrever uma mensagem ao professor. Se pudesses quantificar, qual o tamanho ou a dimensão das tuas saudades?

M. não respondeu e regressou à leitura do livro.

— Então, não respondes à pergunta do professor?

Não sei responder! – disse com uma expressão triste por não conseguir satisfazer o que lhe pedira.

— Porquê?

— Então, elas são tantas que não tenho braços do tamanho dessas saudades.

Senti-me comovido com aquelas palavras, raras nos nossos dias. Contive uma lágrima, um forte abraço e um beijo na testa. Infelizmente, nos nossos dias, neste país, qualquer gesto pode ser confundido com pedofilia.

— Dizes coisas tão bonitas M.! O pai também tem saudades tuas e podes sempre “matá-las” pelo Skype. Espero que a vida te mantenha assim, doce, criativo e meigo.

   Pena a vida ser cruel e não podermos acompanhar as transformações das nossas crianças/adolescentes.

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Foto de Pixabay

Ainda não soube como

diário, escrita, memórias

   As estrelas brilhavam. Por entre as palavras soltou-se o abraço que navegou rumo ao beijo longo e profundo.

   Sorrimos.

   Olhos nos olhos trocamos carícias enquanto saltávamos as ondas que nos levavam junto ao recanto escuro do penedo anexo ao muro de pedra.

  Seguiu-se a contemplação, como se fossemos únicos. Esta impediu que as roupas permanecessem nos nossos corpos, naquela noite duplamente quente. Pelo menos, as necessárias à fusão dos corpos.

  À semelhança de um filme francês, fugimos dali. Parecíamos querer dar asas a uma história com densidade. Todavia, quando estas se iniciam com a concretização da atração física, o fim parece não ser o melhor. Pena não ser livre por forma a poder escrever mais. Liberdade, liberdade… Utopia da democracia.

   Reencontramo-nos volvida uma semana.

   No céu, as estrelas deixaram de brilhar, o tempo mudou… Passaram-se meses e ainda não soube como escrever estes fragmentos.

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Lágrimas by Paulo Vasco

Cai a luz, Professora

diário, educação, humor

      As formas que as crianças encontram para explicar os acontecimentos deixam-nos, muitas vezes, com dificuldade em conter uma gargalhada. Já para não falar daquelas respostas que nos deixam a pensar, dadas as alterações climatéricas que se têm vindo a observar em Portugal, dificultando a distinção entre as diferentes estações do ano.

      A situação que a seguir descrevo ocorreu numa turma de alunos com dificuldades escolares.

Professora: — O que acontece no inverno?

Aluno 1: — Caem as folhas das árvores! (ups, não estás a confundir com o outono?)

A professora alertou os alunos para o facto de estarmos no inverno.

Aluno 2: — Comemoramos o Natal e o Ano Novo em família.

Professora: —Muito bem!

Mal acabou de falar, logo ouviu-se outra voz a opinar.

Aluno 3: — Cai a luz, Professora!  (Não me contive, soltando uma gargalhada, com a criança segura de si e convicta do que dissera a olhar-me.)

    Com “Cair a luz” quis dizer “ficar sem eletricidade”. A expressão era utilizada nas aldeias, mas pensava que já não se utilizava. Na verdade, nunca a ouvira. Na altura, ocorreu-me “cair a luz (lâmpada) dos candeeiros da sala”, “cair a luz do sol”, “cair a luz (brilho) das estrelas”, …  Das folhas das árvores que apenas caem no inverno à luz, haja talento para tamanha “filosofia”.

 

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