Peço silêncio

poema

Quero apenas cinco coisas…
Primeiro, o amor sem fim.
A segunda é ver o outono.
A terceira é o grave inverno.
Em quarto lugar o verão.
A quinta coisa são os teus olhos,
Não quero dormir sem os teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abdico da primavera para que continues simplesmente a olhar.

Pablo Neruda

Lua Adversa

poema

Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

 
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

 
E roda a melancolia
seu interminável fuso!

 
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles, in ‘Vaga Música’

Claudio Arrau – Debussy – Clair de Lune

música, poema

Para relaxar.

 

Clair de Lune é um poema Francês escrito por Paul Verlaine, aqui traduzido em inglês, em 1869. É a inspiração para o terceiro e mais famoso movimento de Debussy’s 1890 Suite bergamasque com o mesmo nome.

Your soul is a chosen landscape
Where charming masqueraders and bergamaskers go
Playing the lute and dancing and almost
Sad beneath their fanciful disguises.

All sing in a minor key
Of victorious love and the opportune life,
They do not seem to believe in their happiness
And their song mingles with the moonlight,

With the still moonlight, sad and beautiful,
That sets the birds dreaming in the trees
And the fountains sobbing in ecstasy,
The tall slender fountains among marble statues.

O Livro dos Amantes

poema

I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

II

Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

III

Príncipe secreto da aventura
em meus olhos um dia começada e finita.
Onda de amargura numa água tranquila.
Flor insegura enlaçada no vento que a suporta.
Pássaro esquivo em meus ombros de aragem
reacendendo em cadência e em passagem
a lua que trazia e que apagou.

IV

Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais nítido à distância
onde te exalto porque te demoras.

V

Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem nocturna.

Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.

Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.

VI

Aumentámos a vida com palavras
água a correr num fundo tão vazio.
As vidas são histórias aumentadas.
Há que ser rio.

Passámos tanta vez naquela estrada
talvez a curva onde se ilude o mundo.
O amor é ser-se dono e não ter nada.
Mas pede tudo.

VII

Tu pedes-me a noção de ser concreta
num sorriso num gesto no que abstrai
a minha exactidão em estar repleta
do que mais fica quando de mim vai.

Tu pedes-me uma parcela de certeza
um desmentido do meu ser virtual
livre no resultado de pureza
da soma do meu bem e do meu mal.

Deixa-me assim ficar. E tu comigo
sem tempo na viagem de entender
o que persigo quando te persigo.

Deixa-me assim ficar no que consente
a minha alma no gosto de reter-te
essencial. Onde quer que te invente.

VIII

Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
a boca o fruto e o sabor.

IX

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

Natália Correia, in “Poemas (1955)”

O Teu Sorriso

artigo, poema

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda

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Fotografia de Paulo Casaca

Esta noite morrerás

poema
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Fotografia de Paulo Casaca ; Modelo- Deborasofia Batista

 

 

Esta noite morrerás.

Quando a lua vier tocar-me o rosto

terás partido do meu leito

e aquele que procurar a marca dos teus passos

encontra urtigas crescendo

por sobre o teu nome.

 

 

Esta noite morrerás.

Quando a lua vier tocar-me o rosto

terás partido do meu leito

e uma gota de sangue ressequido

é a marca dos teus passos.

No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio

e na casa do tempo a hora é adorno.

Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca

o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo

apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.

Constante.

O mar é isso.

A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo

por sobre o teu nome.

O mar é tu morreste.

O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-

tiste e no meu leito crescem folhas sangue.

A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua

e a opacidade do mar.

No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um

prisma, um girassol em panóplia.

Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres

partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus

passos por sobre o meu rosto.

A noite é eu procurar a marca dos teus passos.

Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações

de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito

é o teu rosto iminente.

A lua é uma seta.

Tu partiste é o silêncio em forma de lança.

Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier

tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.

Vou clamar pelo teu sangue extinto.

Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,

a tua língua solta.

O teu ventre, lua.

Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que

o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.

Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço

um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca

dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de

noite e urtigas crescerem no meu leito.

E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe

o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão

mágica de tu poderes morrer-te.

Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro

para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos

teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.

Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de

tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.

 

 

Ana Hatherly (1929-2015), in “Poesia 1958-1978”

José Régio – Sabedoria

7.ª arte, poema

 

Por Bruno Huca

 

Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança…
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . .
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

José Régio, in ‘Poemas de Deus e do Diabo’

Rodrigo Serrão – Hei de Amar-te a Vida Inteira

artigo, música, música portuguesa, poema

 

O poema

— Hoje quero dar-te o sol…

— Dá-me então a lua cheia,
debruçada em ondas mansas
que se estendem pela areia

Hoje quero ser a chuva…

— Pois então eu sou a terra
que o meu corpo é todo um fogo
em resposta à primavera…

— Hoje, quero ser o vento
num poema deslumbrado,
e mostrar-te sem ter medo,
porque estou sempre, ao teu lado

— Hoje quero dar-te tudo,
de uma vez e para sempre,
quero ser como um guerreiro,
que a ti se entrega, simplesmente.

Hoje quero ouvir-te os sonhos,
sós,
à luz de uma candeia.
Hoje quero ter o tempo
de te amar a vida inteira…

— E só por isso dou-te a mão,
e com ela este recado,
meu amor a eternidade….

São os momentos lado a lado

 

 

Alberto Caeiro – Quando Vier a Primavera

7.ª arte, poema

 

Por Pedro Lamares

 

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Pó by Darko

música portuguesa, poema

O desalento de uma perda. Tendo como metáfora o amor,  reflete a tristeza no olhar de uma nação que vê transfiguradas as suas expetativas e os seus sonhos.

é um dueto intenso sobre perda e desencanto interpretado com Mafalda Arnauth.

 

Desembaraço o tempo e o espaço que se ergueu em mim
Regaço laço que me desertou liberto assim
Quimera espera que eu agora não posso mentir
Pudera, era eu que sabia fingir fugir

Corramos para a praça da desgraça e contemplemos só
O que reduzimos a pó

Concupiscências, referências de outro corpo nu
Distância e emergência de que talvez sejas tu
Recordo quando acordo o teu adeus que não escrevi
Eu tento sonhar quando não adormeci

Decora a hora em que eu não vou saber gostar de ti

By Darko

Assista, AQUI à minha versão preferida, ao vivo.

 

Fotografia – Darko FB