Opinião – The Keepers

7.ª arte, artigo, opinião

   The Keepers é a mais recente série/documentário/drama criminal apresentado no serviço Netflix, com 7 episódios, acerca do misterioso assassinato da freira Cathy Cesnik, há 5 décadas atrás.

   Até à atualidade, ainda não há certezas. Somente nos anos 90, algumas alunas desta freira, também professora de inglês do ensino secundário, começaram a dirigir-se aos órgãos idóneos, por forma a encontrar alguma tranquilidade e justiça, apresentando os seus depoimentos, que nos são apresentados, de forma cruzada, por duas antigas alunas, agora jornalistas criminais.

   Em causa estão os alegados abusos sexuais e violações que se verificaram em Colégios Católicos desde, pelo menos, a 2.ª metade dos anos 60, em Baltimora, nos EUA. As referências compreendem os anos de 1968 a 1972, e as práticas algo hediondas  de padres, com o conhecimento de estruturas superiores e o envolvimento de outros níveis de referência na sociedade, junto a adolescentes desprotegidas.

   Uma freira meiga e compreensiva, contrastando com as restantes colegas de profissão, ao ouvir as alunas abusadas e com a noção do que se passava naquelas instituições, supostamente procurou denunciar o caso. Este foi o mote para que a sua morte fosse organizada e levada a cabo, de forma inusitada, macabra e sem que até à atualidade se saiba exatamente o que aconteceu. Pelo exposto, esta tentativa de denúncia não passa de uma hipótese. Também, ao longo da série, as acusações feitas, com documentos e fotografias, não contam com a defesa dos acusados, todos já desaparecidos. Porém, todos nós já ouvimos falar acerca de histórias deste género, o que dificulta o ato de “duvidar”.

   Algumas das confissões das antigas alunas abusadas têm uma carga emocional e dramática bastante fortes. Se verdadeiras, é louvável como conseguiram refazer as suas vidas. Do outro lado, aquelas que nunca falaram e que certamente refugiaram-se nas drogas ou no suicídio.

Leituras complementares, aqui e aqui.

Opinião sobre a série “História de um Clã”

7.ª arte, opinião, reflexão

   A sociedade está repleta de psicopatas. Na sua maioria, esta patologia não foi diagnosticada ou nem é acompanhados pelas diferentes instâncias sociais e de saúde.

      Em “História de um Clã” (El Clan, 2015), filme que se tornou série da Netflix dirigida por Luis Ortega, são dados contributos para a compreensão desta perturbação da personalidade e do comportamento. Como ponto de partida, a história da família Puccio que atormentou Buenos Aires na década de 80.

“Arquímedes (Guillermo Francella) é o patriarca da família Puccio, um homem singular que varre a calçada todos os dias e cumprimenta simpaticamente os vizinhos de San Isidro, nos arredores de Buenos Aires. O filho mais velho, Alejandro (Peter Lanzani) é um popular jogador de râguebi. A família conta ainda com outro rapaz, que no decorrer da ação revela-se muito similar ao pai, apreciando toda a dinâmica associada aos raptos e mortes, e duas meninas; sempre unidos e fazendo as suas orações antes de cada refeição.

O que a sociedade de Buenos Aires de então não imaginava é que, durante anos, o sotão da residência dos Puccio estave constantemente ocupado. Arquímedes valeu-se da experiência como ex-agente da ditadura para chefiar esquema de sequestro de familiares de empresários.

O filho primogénito foi obrigado pelo pai a participar dos sequestros, entre eles o de um amigo do clube de râguebi. Alexandre vê-se em crise, contrariado e profundamente angustiado pelas pressões de um pai absolutamente manipulador e maquiavélico.

Embora fingissem uma vida normal e de desconhecimento do que estava a acontecer, a família ouvia os gritos das pessoas sequestradas e torturadas por Arquímedes e seus cúmplices. Estas pessoas acabavam mortas, mesmo após o pagamento do resgate pelos familiares”

Extraído e adaptado por Paulo Vasco de Wikipedia, às 24h de 30/03/17

Assista a uma síntese dos atos praticados aqui. e/ou aqui

      Esta série conta com interpretações muito boas, um bom argumento e reconstituição histórica. Boa banda sonora, ainda que nem sempre, nos que aos temas em inglês diz respeito, devidamente contextualizada nos anos 80. Possibilita a reflexão e discussão acerca de temáticas atuais. Em alguns aspetos românticos ou humorísticos, remeteu-me para “Como Água para Chocolate“.

There’s no Age for Dancing

7.ª arte

 

Apesar do título em língua inglesa, um produto 100% Português.

 

Podia muito bem ser uma história de amor e ternura entre avô e neto e, na realidade, não foge muito disso. O filme reúne o “pai do sapateado”, Michel, e uma das maiores esperanças no ballet, Francisco. Em palco, Michel anula a gravidade numa dança leve e intemporal, num registo que cala a sua idade. Francisco move-se com a maturidade que ainda não tem, em coordenações certas e infalíveis, plenas de emoção. Juntos, destronam padrões e preconceitos num aplauso prolongado por uma admiração mútua, sublinhando o maior dos ensinamentos: para a dança não há idade.

Fallin’ Floyd

7.ª arte, reflexão

Quando, de repente, a nossa vida adquire tons escuros, há que superar e recomeçar.

Uma reflexão: O Circo das Borboletas

7.ª arte, educação, opinião, reflexão

 

Nestas semanas, tenho vindo a frequentar um curso de Coaching para professores.

Hoje, a formadora propôs a visualização e interpretação do filme O Circo das Borboletas, título que adotei da versão espanhola. Se de início pode parecer algo aborrecido, antiquado ou estranho, deixem que se dê o avanço da história.

A minha reflexão, do ponto de vista do coaching

 

Todos podemos voar como borboletas, mesmo sem órgãos de locomoção. Na verdade, quanto maior a luta, mais glorioso é o triunfo.
Em El Circo de La Mariposa assistimos a um coach de características inatas, desmistificando preconceitos, ao transformá-los em exemplos para tantos outros. Logo de início, ao contactar pela primeira vez com o Sr. sem os órgãos de locomoção desenvolvidos dentro dos parâmetros normais (deficiência motora), ao invés de uma aberração, o dono do circo estabeleceu uma relação de empatia. Por forma a operar a mudança em alguém desmotivado, desvalorizado e portador de deficiência, fez uso da palavra. Com o decorrer do tempo e ao contrário do que muitos esperavam, a performance do indivíduo, com objetivos e metas, evoluiu. Operou-se a transformação e o desenvolvimento, dado o potencial intrínseco, a confiança e a consciência.
Este coach, para além de ver, soube ouvir, acreditou e estabeleceu uma parceria. Em todos os momentos revelou segurança em si, coerência, proatividade, convicção, paciência e humildade. Face a alguém com uma história de vida de dor e asas cortadas, soube revelar competências relacionais e motivar. Constatou-se um processo transformacional resultante da parceria entre ambas as personagens, com a cumplicidade dos outros elementos do circo.

Ainda que portador de deficiência motora, algo tão nefasto na época retratada no filme, o coachee conseguiu encontrar as suas condições de equilíbrio. A “borboleta”, antes no casulo, ganhou asas e beleza, podendo disseminar lições de vida a outros reduzidos a nada, pela sociedade de então.

 

At the height of the Great Depression, the showman of a renowned circus discovers a man without limbs being exploited at a carnival sideshow, but after an intriguing encounter with the showman he becomes driven to hope against everything he has ever believed.

Director: Joshua Weigel
Writer: Joshua Weigel & Rebekah Weigel
Producers: Joshua Weigel, Rebekah Weigel, Angie Alvarez
Executive Producers: Jon & Esther Phelps, Jason Atkins, Nathan Christopher Haase, Bob Yerkes, Ed Vizenor & Nathan Elliott
Director of Photography: Brian Baugh
Production Designer: Yeva McCloskey
Editor: Chris Witt
Cast: Eduardo Verastegui, Nick Vujicic, Doug Jones, Matt Allmen, Mark Atteberry, Kirk Bovill, Lexi Pearl, Connor Rosen
Original Score: Timothy Williams (Composer)

 

Abrace intensamente

7.ª arte

 

Dás-me um abraço?

Moby – Are You Lost in The World Like Me

7.ª arte, música

Excelente trabalho gráfico e audiovisual.

 

 

 

A Vida da Morte

7.ª arte

José Régio – Sabedoria

7.ª arte, poema

 

Por Bruno Huca

 

Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança…
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . .
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

José Régio, in ‘Poemas de Deus e do Diabo’

Alberto Caeiro – Quando Vier a Primavera

7.ª arte, poema

 

Por Pedro Lamares

 

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa