Coisas de Criança

diário, educação, escrita

Hoje, comecei a prestar apoio direto, entre outros, a um menino de 7 anos hiperativo e deliciosamente “criança“.

Entrei na sala de aula e sentei-me junto dele. Já nos tínhamos conhecido noutro dia. A professora titular deu-nos os materiais a trabalhar e informou-me que a criança não tinha tomado a medicação, pelo que devia ignorar certas atitudes.

Abracei-o e dei início ao trabalho, recorrendo a um tom de voz meigo e calmo, introduzindo assim a tarefa.

– Sabes, tenho piolhos! – informou-me logo no início, como se de uma guerra se tratasse.

– Não faz mal. Em casa, com a mãe usas um champô adequado. – respondi.

Na minha “inocência” de adulto pensei que ele estivesse preocupado com alguma forma de transmissão dos parasitas, uma vez que as nossas cabeças estavam muito próximas.

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Passados instantes,

– Sabes, tenho doenças.

E tomo medicamentos. Muitos! – voltou a informar-me, como se de uma peste se tratasse.

Entendi que, a tudo o custo, queria-me fora dali, para assim não fazer as tarefas propostas. Decidi entrar no jogo e num espírito de incutir regras disse-lhe:

– Sabes, tenho doenças, tomo medicamentos… e também tenho piolhos!

Tirou uma camisola e respondeu-me com a seguinte observação:

– Tu és velho!

Dei comigo a pensar “Ainda na outra semana, um aluno ficou admirado porque… eu tinha mais de 16 anos”.

– Velho?! Mas nem tenho rugas. Observa!

Prontamente perguntou:

– Tu já tens 20 anos?

Agora que todos escrevem livros, deverei eu fazê-lo revelando os meus segredos, no masculino, para uma aparência mais jovem?

 

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5 comentários sobre “Coisas de Criança

  1. Respondendo à questão da “velhice”, os miúdos são tramados. Muitas vezes temos de saber ignorar uma ofensa e levá-la na brincadeira 😛 Mas quando falam em velhice é sempre muito relativo hehehe
    Quanto ao resto, é triste que uma criança use os argumentos “tenho piolhos” e “tenho doenças” pensando que afastará o professor. Na realidade, ela sabe que essas frases afastam muitas crianças [por culpa dos adultos que as educam] e infelizmente alguns professores (só os maus professores, os bons não desistem tão facilmente ;))
    Olhe que escrever um livro era uma boa ideia, com o registo de respostas engraçadas que ouve dos seus alunos, acredito que sejam imensas!

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    1. Eu ri imenso com este miúdo. Talvez por não estar habituado ao nivel etário. Nunca me ocorreria tais ideias nem teria tamanha “lata”. Uma criança simples, de origem muito humilde e que foge a “7 pés ” da leitura e escrita.

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      1. Porque no “nosso tempo” as coisas eram diferentes. Havia respeito pelos professores, eu lembro-me de fazer piadas sobre professores fora da sala, entre alunos. Mas ai de nós que o professor (ou os nossos pais) sequer sonhasse(m) que estávamos a dizer tal coisa.. Hoje em dia não há respeito. E se alguns são engraçados, outros nem tanto..
        Eu, graças a Deus, nunca apanhei nenhum mau (porque os maus não têm atenção em casa e não são colocados em explicações), só apanho os preguiçosos engraçados, como me parece que seja este caso.
        Mas ainda ontem a minha miúda me contou que uma colega andou a fugir à professora dentro da sala de aula, por entre as mesas.. Uma miúda exemplo de extrema má educação e falta de respeito! Eu tenho pena dos professores que lidam com ela..

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        1. Infelizmente esses são cada vez mais. Regra geral, aqueles a quem presto apoio. A consequência do destacamento para cuidar da avó e mãe. Nem no meu ciclo de ensino e disciplinas sou colocado. Acabei de chegar a casa e confesso-me esgotado. Pelas alterações em 2 alunos logo previ que a minha avó estivesse em crise de Alzheimer. Um, com intervenções dissimuladas, pondo-se a jeito para que os colegas o gozem. O outro, mesmo dizendo-lhe que a introdução da composição estava errada e que dela devia constar xyz, nada apagou (afinal ele é que tinha razão!) e evitou mostrar o resultado do seu trabalho à professora. Durante o dia, na execução das tarefas pensou enganar-nos, fingindo fazer o pedido enquanto, na realidade, escrevia o seu nome. Para finalizar o dia, outros dois. Feito o intervalo, eis que decidiram começar a comer laranjas na sala de aula. Logo os proibi alertando para as regras da turma. Ao virar costas, eis que se dirigiram ao caixote do lixo com um “vai-te lixar” e deram continuidade à tarefa. Escusado será dizer que não gostaram de segunda repreensão e que a comida apenas não voou por respeito à quem não a tem. Somos nós que temos de ensinar o que deve vir de casa? 😤

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