Disseram-me “O pior vem depois”

diário, escrita, reflexão

A morte de um doente terminal desencadeia sentimentos inesperados nos familiares cuidadores. Na verdade, nunca estamos preparados para a morte, sobretudo quando esta é a daqueles que sempre fizeram parte da nossa vida e que partem demasiado cedo.

 

 

 

      Até então, não compreendia o significado da expressão “o pior vem depois”. Pensava que se referiam ao momento em que o caixão é lançado para aquela cova funda e sabe-se que o rosto jamais será visto. 

Como estava enganado. Neste caso, a morte trouxe um manto de alívio. O da dor! Querer que um doente terminal de mieloma múltiplo, em estado de decomposição continue a viver, é puro egoísmo. 
      A terra cobriu o corpo nobremente adornado e preparado. As lágrimas não lavaram o rosto. Já em casa, deitados na cama, pela primeira vez, eu e a minha mãe tivemos a perfeita noção de que estávamos sós no mundo, entregues um ao outro, com a avó doente de Alzheimer a nosso cuidado. Receámos não ser capazes. 
      Hoje faz dois anos que marcam aquele dia. Resta-nos o “fazes falta” e os momentos ainda preenchidos em sonhos, por vezes convertidos em pesadelos.

 

Paulo Vasco

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9 thoughts on “Disseram-me “O pior vem depois”

  1. Como entendo esta dor… No espaço de um ano sofri a perda de uma filha (recém-nascida) e do meu companheiro agora recentemente. Há momentos em que o sofrimento é tanto que nos sentimos completamente abandonados, até por aquela força maior na qual acreditávamos… Sucedem-se a revolta, a dor, as lágrimas, a desesperança, tudo enovelado numa só palavra: solidão! Os amigos ficam a nos confortar, solidarizando-se com a nossa dor, dizem palavras de consolo, muitos nos abraçam sem dizer nada, apenas a nos trazer o conforto daquele momento… Mas tudo isto, nos primeiros dias, esbarra num muro que erigimos a nossa volta, como se a revolta, ou a dor, ou todo o sofrimento junto, tivesse que ser vivido apenas por nós mesmos, como se tivessem um tempo a cumprir dentro de nós, e a barreira servisse para que o tempo do martírio se cumprisse sem nenhuma interferência. É doentio, é extremamente patológico, mas dentro deste isolamento podemos ser masoquistas, sádicos conosco, viver a nossa tortura em sua forma mais cruel, expulsar todas emoções que poderiam nos tirar daquele “inferno”, cultivando somente aquelas que minam os sentimentos melhores dentro de nós…
    Vivemos assim por dias, querendo culpar alguém, e este alguém, para quem acredita numa força maior a reger o universo, vem a ser Deus. Não queremos escutar quem nos diz que é Ele que nos comanda, ele escolhe o nosso destino, ou pior ainda: tinha que ser assim, chegou o momento dessa pessoa ir embora…
    Não, não tinha que ser assim, e que Deus é este que nos faz sonhar por nove meses com uma filha e a deixa somente por minutos em nossos braços… Que Pai é este que nos faz viver o grande amor, que nos coloca na vida o companheiro ideal e o leva quando ainda havia tantos sonhos a realizar…
    Foi em Deus, meu amigo, que derramei toda a minha desordem emocional, sozinha, dentro da minha bolha de proteção, não querendo que ninguém viesse tirar de mim o sentimento da revolta, da incompreensão ao gesto de um Pai de quem todos diziam ser um protetor…
    Foi penoso, doído, extremamente doloroso arrebentar a bolha e deixar entrar um pouco de compreensão, mas quando me conscientizei de que isto deveria ser feito, eu o fiz. Senão estaria até hoje me envenenando com sentimentos, emoções e pensamentos negativos…
    Dizer que a dor se foi, não direi, e ainda existem momentos em que ela dói mais… Mas aprendi a conviver com ela… De que forma, nem eu sei. Dizem alguns que foi a ação do tempo. Outros, que foi Deus agindo no meu coração. Eu não saberia dizer ao certo.
    Coloco tudo isto no rol das situações que o ser humano vive sem saber como explicá-las, apenas aceitando como mistério dentro de um enigma maior que é a própria vivência humana.
    Desculpe, meu amigo, ter-me alongado tanto… Acho que eu precisava de um desabafo deste tipo e a tua postagem me propiciou isto.
    Deixo-te de presente este poema do Antonio Machado:
    “Caminhante, são teus passos
    o caminho e nada mais;
    Caminhante, não há caminho,
    faz-se caminho ao andar.
    Ao andar se faz caminho,
    e ao voltar a vista atrás
    se vê a senda que nunca
    se voltará a pisar.
    Caminhante, não há caminho,
    mas sulcos de escuma ao mar.”
    Fica em paz, meu amigo!

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    1. Não há de que pedir desculpa. É exatamente por esta razão que prefiro os blogues perante as redes sociais. Infelizmente, vivemos tempos de falsa partilha no Facebook e muita cusquice. Como era bom quando apenas tínhamos os blogues, reunindo-nos em torno de um tema e dando as mãos.
      Não consigo imaginar a imensidão da tua dor. O 1 filho dos meus pais também morreu após 1 ano de vida. Ainda hoje ela sofre por ele. Veio o Alzheimer da mãe, minha avó acamada, de quem cuidamos. E foi então que o cancro bateu-nos à porta sem pedir licença. Começou na glândula salivar da minha mãe e um dia após a “conclusão” do tratamento foi diagnosticado o Mieloma múltiplo do meu pai. Ou seja, há muito tempo que o cancro do meu pai fazia das suas sem que o detetassem. Foram anemias e um inusitado envelhecimento, acompanhado de muitas dores até então.
      Como é óbvio, volvidos estes dois anos, já encontrei um equilíbrio que não consegui quando tudo aconteceu. Quase tive um esgotamento. Mas ainda lamento não ter conseguido ajudar nenhum doente a fugir de “médicos que matam”.
      Muita força, Helena.
      Estamos juntos neste caminho por vezes tão vazio.

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