Esta noite morrerás

poema
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Fotografia de Paulo Casaca ; Modelo- Deborasofia Batista

 

 

Esta noite morrerás.

Quando a lua vier tocar-me o rosto

terás partido do meu leito

e aquele que procurar a marca dos teus passos

encontra urtigas crescendo

por sobre o teu nome.

 

 

Esta noite morrerás.

Quando a lua vier tocar-me o rosto

terás partido do meu leito

e uma gota de sangue ressequido

é a marca dos teus passos.

No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio

e na casa do tempo a hora é adorno.

Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca

o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo

apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.

Constante.

O mar é isso.

A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo

por sobre o teu nome.

O mar é tu morreste.

O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-

tiste e no meu leito crescem folhas sangue.

A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua

e a opacidade do mar.

No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um

prisma, um girassol em panóplia.

Agora a lua chega devagar e o mar é o leito de tu teres

partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus

passos por sobre o meu rosto.

A noite é eu procurar a marca dos teus passos.

Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações

de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito

é o teu rosto iminente.

A lua é uma seta.

Tu partiste é o silêncio em forma de lança.

Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier

tocar-me o rosto vou uivar como um lobo.

Vou clamar pelo teu sangue extinto.

Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos,

a tua língua solta.

O teu ventre, lua.

Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que

o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.

Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço

um pêndulo para interrogar a lua por tu teres partido e a marca

dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de

noite e urtigas crescerem no meu leito.

E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe

o coração de alfinetes para que tu partiste seja a razão

mágica de tu poderes morrer-te.

Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro

para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos

teus passos consiste nos olhos abertos de um pássaro esventrado.

Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de

tu morreste para poderes enfim tocar-me o rosto.

 

 

Ana Hatherly (1929-2015), in “Poesia 1958-1978”

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2 thoughts on “Esta noite morrerás

  1. Este poema me lembra outro, de poeta brasileiro – Augusto dos Anjos – chamado “Versos íntimos”. É possível lê-lo on line. Penso que podes gostar, o pá!

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