E as palavras

artigo, diário

Durante os últimos meses, tem vindo a escassear o meu tempo disponível para este espaço que nunca foi um projeto. Mais ainda para as redes sociais. Cansei-me de recorrer às  entrelinhas nas verdades, de não ser direto e objetivo, por temer consequências, entre outras, como as de ordem laboral, por exemplo.

Aos poucos, tenho vindo a aprender a viver na farsa, uma vez que agora somos só três, com muitas noites e dias sem dormir, sobretudo quando a demência da avó se manifesta. O quanto sofrem, no seu pranto e labuta, os Doentes de Alzheimer.  Eu sou o “homem de família”, “fonte de rendimento”, cuidador e de apoio; não obstante a louvável força da minha mãe. Não estava preparado para esta rasteira da vida.

E os outros, o que querem saber a este respeito?  Nada.  Ao cuidador nem é dada a oportunidade de permutar algumas horas ou um dia de trabalho. Quando a este quadro se associa a probabilidade de um novo cancro da mãe, o cenário  mantém-se. Palavras para quê? Só mesmo as de escárnio e maldizer, idênticas às daquela zombie de sorriso bonito, que cresce junto às chefias recorrendo à sua suma maledicência, idiossincrasia que parece fazer parte do seu genótipo. De louvar a forma de obter informação acerca dos trabalhadores…

Bajulai, bajulai…

Talvez um dia, na sessão de depilação, por forma a operar uma mudança, no lugar de pêlos comecem a sair fios de lã.

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8 comentários sobre “E as palavras

    1. Muita coragem e força, Mia.
      Admiro as pessoas que não abandonam estes doentes. Mas (ai este “mas”), ainda existe tanta ignorância em torno destas patologias… Desde pensarem que Alzheimer é a doença do esquecimento (ex.: não nos lembramos onde deixámos as chaves do carro e… estão à nossa frente), as crises de demência são quase totalmente ignoradas… a dor do nosso familiar esquecer quem somos, mas bem pior, falar ou gritar como se uma parede estivesse a cair para um rio que não existe, no qual nadam pessoas.
      Tantos exemplos. E há tanto, mas tanto a dizer! 😦
      Abraço.

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  1. Meu caro, muita força para ultrapassar esta fase menos boa… sei o quanto é dificil levantar do chão depois de uma perda como a que, infelizmente, já tivemos… depois conviver diariamente com estes “problemas” dos que mais amamos também nos desgastam. Mas são estas batalhas que nos tornam gigantes. Forte abraço.

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  2. Gostava de te poder ajudar mas não consigo. O estado também não consegue, antes pelo contrário. Estás numa situação complicada e parece que carregas o mundo nos ombros. O que quer que o futuro te reserve, tenho a certeza que algo de bom te chegará às mãos.
    Beijinho e muita força, estamos aqui para o desabafo*

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  3. Mais que desabafo… poesia. Ou, por outro lado, menos que poesia, desabafo. A ordem das coisas, numa visível contradição em termos, é absolutamente relativa. A gente não consegue explicar tudo. Os mistérios são infinitos e profundos. Penso que no dia em que tudo se explicar, mais nada restará a se chamar de vida ou existência. às vezes, tenho a impressão de que vivemos outra dimensão, em sua ambiguidade: memória do que passou… Será que um dia vai ser sabido?

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    1. (…)Os mistérios são infinitos e profundos. Penso que no dia em que tudo se explicar, mais nada restará a se chamar de vida ou existência. às vezes, tenho a impressão de que vivemos outra dimensão, em sua ambiguidade: memória do que passou…

      O quanto estou de acordo!

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