A Vida, essa Ingrata

diário, escrita, reflexão
   De alguém que me é querido e com quem partilho praticamente todas as dúvidas, alegrias, tristezas e incertezas. Uma correspondência que adaptei, sem retirar qualquer verdade ou sentido. Apenas, com vista a dar outro sentido literário, se é que o consegui. Mas isso, pouco ou nada importa.

 

   A vida, essa ingrata e leviana de contornos desdenhados, nos becos de onde o fumo não sai, devia ser para quem gosta dela. Uma dádiva para quem a sabe amar, beijando cada canto seu, e contornar. Para quem não se cansa e satura de ficar desorientado, alheio às atrocidades de um mundo que já não é nosso, dolente, vazio e desprovido de valores.

 

Repara como estamos doentes perante tantas enfermidades que sitiaram o nosso pequeno jardim, onde as rosas já não são como antes. Nada é como antes, as estações do ano, o sabor dos frutos, os olhares, a harmonia, a mão que se estendia…

 

No teu absurdo, acabas por ter sorte com os teus vizinhos. No meu, nem essa graça alcancei. Brevemente estaremos sós, velhos, dependentes e sem vitalidade.

   Matamo-nos aos poucos, sabes disso.

 

Dizes não ter nascido para o amor. E eu?  Ainda és novo. Não podes deixar que os parasitas desse teu outro jardim que também eu partilho, agora repleto de pragas, te consumam e deixem igual a mim.

Estou velha. Por que insistes em dizer-me que não?
Estou cansada de estar cansada.
Estou cansada de nada poder fazer. Não, não digas o contrário.

As nossas mães, essas sim, fazem sem poder, com as armas que Deus lhes deu ao nascer. Já eu, estou cansada de já nada saber fazer, de já nada me apetecer, de não ter alento,…

 

Estou cansada.
Cansei-me a fazer o quê, quando afinal nada sei fazer?

A tua, EU.

 

Um dia, disseram-me que somos nós a escrever o nosso destino. Discordei.

Compreendi a outra perspetiva mas mantenho a minha posição contrária de então. O livro da vida de alguns está cheio de momentos de puro vazio, ocasionados por perdas e o tempo que passa. São caminhos repletos de obstáculos.

A fé torna-se pedra.

A cobardia impede-nos de ditar o fim.

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6 thoughts on “A Vida, essa Ingrata

  1. Paulo,
    Pensei bastante tempo antes de comentar. As emoções, afinal, não precisam de palavras.
    Mas, se uma coisa me levou agora a voltar aqui, foi a sensibilidade e a verdade: o destino, seja ela construído por nós ou decidido de antemão, merece sempre que cada corda seja tocada…

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