Os 69 anos que não te deixaram viver

diário, escrita

Sem palavras.

Sem imagens.

Hoje, celebrar-se-ia o 69.º aniversário do meu pai. Há um ano atrás, domado pelo cancro, nada entendeu deste seu dia, entre quedas, muita dor e episódios de loucura. Definitivamente compreendemos que estava demente e que não tinha salvação. Deu-se início à batalha com as médicas que tinham proposto e realizado o autotransplante de medula e que diziam “nada ver”… Nada queriam ver, muito menos reconhecer que tinham falhado e assassinado um doente ao estimular as células cancerígenas, tendo operado sem previamente conseguir analisar a área em questão. Assim, o caminho foi árduo até, ainda em vida, se dar início à entrada em estado de decomposição.

É impossível que os outros compreendam aquilo por que passaste ou eu e a mãe. Afinal, apenas nós e só nós estivemos sempre presentes, alternando turnos. A este desconhecimento, como mais tarde vim a entender, por corredores e gabinetes, na Escola de Santa Comba Dão, se devem muitas das histórias criadas e alimentadas por quem não sabe o significado de cancro, demência, depressão, etc.. Não, não permito mentiras e se pensavam que seria fantoche ou escravo, beijos e abraços. Decididamente não o fui. O veneno alimenta os néscios. Sobretudo, os que se consideram doutos. Sirvam-se e alimentem-se deixando-me livre de correntes e grupos que não são nem nunca foram meus.

A nosso lado, naqueles tempos e nos atuais, os vizinhos. Um exemplo nos nossos dias. Desta forma, acredito que, no teu lugar de luz, estejas tranquilo. Também o Alípio, cuja integridade sempre defendeste e outros que sabes quem são. Os tios de Mortágua frequentemente dizem à mãe sentirem-se bem por saberem que temos esta vizinhança. A avó, nas suas presenças no nosso mundo, ainda chora por ti. Quando em crise, é capaz de te evocar. A doença de Alzheimer é bastante desgastante,

Hoje, logo pela manhã fomos visitar-te. A mãe fá-lo religiosamente todos os sábados. Eu não. Sempre fui contra as flores depois da vida. Estas foram-te dadas ainda em vida. Mas entendo-a. Com Deus ainda estou  confuso. Comigo, inclusive. Quantas vezes me perco e sou domado pela inércia e pela vontade dos nadas…

Onde quer que estejas, que este dia seja de luz e paz. Jamais igual ao dos teus 68 anos!

Pensava eu que “todos” teríamos pai até que estes fizessem, pelo menos, 80 anos.

Que tolo sou…

Fotografia do header deste post do amigo do meu pai, Dr. Luís Borges Alves

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15 comentários sobre “Os 69 anos que não te deixaram viver

  1. Paulo, meus sentimentos por esta perda, ao que lí fizeste seu melhor, junto tua mãe. Guarda-te e tome para ti apenas as boas lembranças ainda em vida, és muito especial e anjo por sua alma pura. Deus te abençoe em suas jornadas que ainda há de ser longa. Encha teus dias com carinho de sua mãe, zele por ela és uma missao muito linda. Forte abraço amigo!

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    1. Sim, Robson. Eu e a minha mãe tudo fizemos do que estava ao nosso alcance. Disso não tenho qualquer dúvida.
      Procuramos o internamento apenas quando constatamos que para além daquele cancro, ele tinha desenvolvido demência. Na altura, pensávamos que temporária e que tudo se iria resolver, regressando a casa, aos nossos cuidados. Enquanto a minha mãe o visitava, eu ficava a cuidar da minha avó, doente de Alzheimer. Foram dias de muitas incertezas e de muito medo.
      Obrigado pelas tuas palavras.
      Um abraço.

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  2. Paulo, que post emocionante… A vida é feita de tantas surpresas!!! :S
    Desejo que muitas sejam as surpresas agradáveis que te esperam, que já tiveste que passar por demasiados obstáculos…
    Um excelente regresso ao trabalho. Aguardo novidades!
    Já agora, tenho passado por várias placas a sinalizarem Santa Comba Dão! Fiz um tratamento nas termas de Caldas da Felgueira, conheces?
    Um grande beijo!

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    1. Obrigado, Dora.
      Podes sempre aparecer. 😉
      Deus te ouça. E este ano que será tão diferente! Longe de energias negativas como desde 1998/99 não sentia e que sobre mim se esbateram nestes dois últimos.
      Sim, conheço as termas a que te referes. Em 83, ainda não eras um zigoto, perto, houve um grave acidente de comboio. Ups, estou a confundir com as termas de Alcafache ou são as mesmas? Ai… Esta é uma zona termal que se estende até Cinfães. Aqui mesmo, em Santa Comba, há águas termais numa aldeia (não vou chamar bairro de cidade pois a Santa Comba falta sobretudo saber estar, ser e valores para de facto corresponder a uma cidade), chamada Granjal. Prevê-se virem a ser estudadas – o protocolo está assinado-, mas do papel à prática…
      Beijos.

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  3. Complicada esta fase da vida. Estamos a passar um pouco (nada parecido com o que descreves) momentos difíceis de doença de demência por parte de um dos progenitores.
    Fica bem e a tua homenagem foi bonita e tocou-me ao coração.

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    1. Obrigado pela visita. Cá em casa também temos a minha avó já há 4 anos, com a Doença de Alzheimer. Por vezes, quase não conseguimos dormir. Mas graças a ela, e porque de nós depende, foi mais fácil encontrarmos forças e um novo alento, ainda que muitas vezes as nossas quedas pareçam inevitáveis.

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