Cthulhu oil painting by tentaclesandteeth - Pixabay

Cthulhu oil painting by tentaclesandteeth – Pixabay

      Como é estranho quando alguém da nossa idade, que fez parte da nossa turma na escola, parte para outra dimensão. Não procurei  aprofundar as razões ou as palavras alinhavadas pelo povo, no “diz que disse”. Neste momento, de que importa se a causa daquela morte foi natural, doença cardiovascular, problemas associados ao divórcio, à falta de dinheiro, à dependência do pai ou por cansaço de um mundo que nos mutila? O corpo já não está entre nós. Decompõe-se e prepara-se para voltar ao solo, fertilizando-o.

       Também o seu pai era duro.

      Recordo, no meu 5.º ano, quando alguém roubou o meu guarda-chuva. Um dos colegas da minha escola primária tinha assistido ao ato. Eu já estava sem ar, adivinhando a surra que o meu pai iria-me dar. Queria lá saber da chuva forte que se fazia sentir. Certamente chorei, no meio de matulões que mais pareciam meus tios do que colegas do 5.º e 6.º ano. O F. disse quem me tinha “roubado” o guarda-chuva, o AJ. A ele me dirigi, com medo (sim, eu era saco de pancada) e pedi-o. Negou-o. Reparei que a marca feita pelo meu pai já estava deformada com um canivete ou algo do género. Mas era o meu “V” de Vasco. Ao chegar a casa, não sei como fui “perdoado”. Meu pai decidiu falar com o pai dele. Creio que foi a 1.ª e única vez que agiu desta forma.

      Na segunda-feira, o AJ chamou-me e entregou o guarda-chuva. Entre um palavrão, perguntou porque tinha contado ao meu pai e este falado com o seu. Não me recordo de tudo com exatidão. Consigo percecionar o lugar da escola. Sei que quando me disse como era o pai e o que este lhe fez, acabei por ficar com pena dele, preferindo nada ter feito, sujeitando-me à surra do meu, que nada era comparada com o que lhe aconteceu.

      Nenhum conflito houve entre nós. AJ não fazia parte do grupo daqueles que gostava de me humilhar pela minha falta de aptidão para ginástica, ser gordo ou quando errava alguma pergunta. Ficou pelo 6.º ano. Naqueles tempos era assim. Alguns pais colocavam o rótulo de “burros” nos filhos ou acediam facilmente à falta de vontade destes para continuar estudar, por forma a, desde cedo, os inteirarem nos negócios da família. Outros, apenas porque para eles a escola não tinha valor. Outros casos existiam, claro. Como a pobreza.

     Voltei a cruzar-me com o AJ já formado, ele casado e com o seu negócio. Pai de duas crianças pequenas, o divórcio ocorreu anos mais tarde, creio que durante o período mais negro da doença do meu pai. Na realidade, pela minha experiência profissional, com crianças, na generalidade os divórcios não cessam. São processos de tortura, mutilação, vingança e agressão entre adultos, envolvendo crianças como objetos ou brinquedos. E assim nos destruímos pouco a pouco, sem entender que o “amor” se transforma em amizade ou que nem sempre o desejo sexual perdura.

      Se em adulto, um pai faz falta, sobretudo para lesmas pseudo inteletuais, como eu, que apenas entendem de livros e alguma tecnologia, o que dizer das crianças? E os pais de um adulto ao verem invertido o ciclo normal da vida?

“A vida não é justa, Dr. Paulo!” 

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6 comentários sobre “A morte chamou-o

  1. Nunca interessam as razões da partida, de certa forma nem quem partiu, mas sim o que podemos fazer por quem fica, na memória de quem partiu ou apenas na nossa própria consciência.

    Abraço.

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    1. Concordo plenamente com o início do teu comentário. Ainda me sinto perturbado com tudo isto. Sábado e ainda não sei o dia do funeral. Para quê tanto sofrimento? Penso nos pais, nos filhos, no que não foi dito, no que terá sido dito sem intenção… É complicado quando a morte chega ao nosso grupo. Que esteja em paz.
      Obrigado pelas tuas palavras. Abraço.

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    1. Sempre tão gentil, Miguel. Esta sempre foi a minha casa, depois de terem cessado com uma plataforma maravilhosa que foi o Multiply. No Sapo refugiei-me, por tempos, para escrever enquanto o meu pai morria. Fui encontrando pessoas interessantes e ficando. Ao mesmo tempo, apareceram, em maioria, pessoas incrivelmente más, de formação duvidosa. Não, assim não é a blogosfera onde me “estreei” em 2003. Decidi regressar às origens. Abraço.

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