Outro artigo do psicólogo Eduardo Sá que aqui partilho e com o qual concordo.

Crianças felizes. Imagem de Pixabay

Crianças felizes. Imagem de Pixabay

1.
Brincar é o aparelho digestivo do pensamento. Brincar ajuda a aprender. E a resolver problemas. E ajuda a fazer parcerias. E a construir enredos e histórias e a desempenhar personagens, mesmo que quem brinca faça de si próprio. E ajuda a dar uma dimensão prática áquilo que se aprende: na sala de aula, no recreio e na escola da vida. E ajuda a ligar ideias e a costurar conhecimentos. E a ligar pessoas, fantasias e até aquilo que, parecendo contraditório, se liga com delicadeza. Brincar é amigo da matemática, porque põe problemas, e do português, porque lhes dá voz e veste-os com palavras. E é amigo das estórias com que se escreve a história. Brincar tem ciência e dá química às coisas. É amigo da geometria descritiva e do modo como o espaço se vive e se constrói. E ajuda a agredir com lealdade e com maneiras. E a lidar com a dor e a costurar as frustrações. Liga os riscos com a ousadia. E, claro, casa os compromissos com a liberdade. Por outras palavras, quem não sabe brincar não sabe pensar!

2.
As crianças precisam de brincar todos os dias. Brincar em casa e brincar na escola. Mesmo nas escolas que imaginam que brincar é uma atividade de primavera/verão e que, por isso, supõem que não é preciso ter recreios cobertos, com pisos e adereços amigos das crianças. E precisam de brincar sozinhas e acompanhadas. Em casa e fora dela, claro. E precisam (mesmo!) de brincar em espaços públicos. Porque um brincar assim traz amigos desconhecidos. Transforma os estranhos em caras familiares. E obriga a partilhar com quem nunca se brincou. Traz alguns medos e uma pitada de riscos. Mas, com eles, vem o desafio de os olharmos nos olhos e, só assim, se aprende a vencê-los.

3.
Brincar torna as crianças atentas, sempre que se distraem, e fá-las distraírem-se quando a atenção, lavrada com aquilo que elas criam, as faz ter um engenho de perguntar porquê e a ir sempre um pouco mais além. Na verdade, não há como o brincar para que as crianças aprendam a perguntar!

4.
Para crescerem saudáveis, as crianças precisam de brincar duas horas por dia. Um brincar que elas giram, mal cheguem a casa. Antes, ainda, de fazerem qualquer tarefa escolar. Ou seja: primeiro, brinca-se; depois, estuda-se! Brincar é, pois, mais importante que as atividades extracurriculares. Este brincar não é uma atividade que seja recomendável em espaço escolar ou paraescolar. Deve ser um brincar livre, gerido pelo engenho das crianças e tutelado pelos pais. Deve ser um brincar onde não estejam só a ponta dos dedos, claro. Mas, como se diz no futebol, um brincar onde se tem de “entrar com tudo”: com a cabeça, com o corpo e com a alma.

5.
É por isso que eu acho que uma criança que só brinca quando um adulto direciona o seu brincar, vive em liberdade condicional. É como uma ave que só se imagina a voar. Cria sob tutela o que, na verdade, não será, de todo, criar. Uma criança assim esconde no brincar o seu desamparo. E isso preocupa-me! Porque brincar é um exercício de liberdade. Uma forma de tratar por tu a imaginação, a fantasia e o pensamento. Brincar traz o brio e a garra, a honestidade, a perseverança e a tenacidade. E traz a festa, claro. Mas porque é que aprender não pode ser uma festa?… Brincar não é, pois, uma meta educativa; é aquilo que as torna possíveis.

6.
Por tudo isto, eu acho que, à porta de um recreio, devia estar um letreiro enorme dizendo: “reservado o direito de admissão!”, de forma a proteger os recreios dos adultos abelhudos. Daqueles que acham que as crianças não sabem nem brincar! Quando, na verdade, sempre que as crianças parecem não saber brincar são os pais que lhes não contam histórias. Que as entregam a tablets, a telemóveis e à televisão, como se cada um deles fosse um babysitter. Quando são eles que, ao jantar, não falam mas partilham uma telenovela. Quando são eles que não as deixam correr e sujar-se. Quando são eles que acham que tudo o que é vivo parece ser ameaçador ou, até mesmo, perigoso. Ora, eu acho que se aprende tanto (ou mais) no recreio que na maioria das aulas. Recreio é escola de vida. É o sítio onde as crianças se educam umas às outras. É bom que haja um vigilante, sim, para as proteger dos excessos, por exemplo. Mas devia ser proibida esta tutela absurda que muitas escolas fazem do recreio. Aliás, eu acho que a escola ganharia se transportássemos o recreio para a sala de aula, porque, assim, ela seria mais plural, mais participada, mais democrática e mais inclusiva.

7.
Toda a gente nasce a saber brincar. Mas sim: há pessoas que se esqueceram da infância que tiveram e há pessoas que nunca foram crianças. Umas e outras não sabem brincar. E, às vezes, estas pessoas a quem roubaram a infância parecem tornar-se tão invejosas (ou sentir-se tão ameaçadas com a infância da qual se desencontraram), que acabam afirmando que as crianças são cruéis umas para as outras, que têm brincadeiras estúpidas, que não sabem brincar, que fazem muito barulho ou que têm brincadeiras muito agressivas. Eu acho que é tudo mais simples. Afinal, essas pessoas vivem sequestradas na pior saudade de todas: na saudade do brincar que nunca tiveram.

8.
Brincar tem riscos! O maior de todos os riscos é o das crianças crescerem à margem da infância. Comandados por pais e professores que ainda não perceberam que não é quem cresce mais depressa que cresce melhor. E, pior, ainda, traz “a mãe de todos os riscos”: o risco de viver com adultos que estão longe de perceber que brincar é o património imaterial, mais delicioso e mais comovente, da Humanidade.

9.
Se eu mandasse, decretava uma greve de zelo a todos os brincares. E aí iríamos todos ver como os pais se iriam constipar por tanta tolice! E deviam processar os políticos que acham que brincar faz mal, no tribunal dos “donos disto tudo”, por “gestão danosa” da infância. E deviam manifestar-se, todos os dias, contra todos aqueles que acham que o brincar as distrai! E faz com que as crianças deixem de ser atiladas e compenetradas. Aliás, se as crianças ainda são um bocadinho crianças, contra a vontade de muitos, é porque elas se organizaram como Resistência. E têm como arma secreta o seu brincar!

10.
Brincar dá alma! E dá sabedoria. E abre, todos os dias, uma avenida onde o horizonte fica sempre mais além!

Eduardo Sá

Eduardo Sá (2015). Brincar tem riscos. Extraído de Leya, às 23h.40min de 07 de junho de 2015.

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18 comentários sobre “Brincar tem riscos por Eduardo Sá

  1. Já te disse uma vez que este psicólogo tem uma ideias e ideais que compartilho. Este artigo fez-me lembrar um episódio que se passou quando o meu filho andava no 3º ano.
    Um dia chegou a casa e disse que tinha visto na escola um filme de desenho animado qualquer. Achamos estranho. Filmes de animação na escola? Mas em que aula? Percebemos que na hora de recreio em vez de os deixarem ir brincar colocavam-nos numa sala grande, que também servia de refeitório, a ver filmes!!!
    Claro que fui à escola e alertei alguns pais que sabia que compartilhavam da minha ideia. Bem sabes que alguns concordavam com a ideia.
    A desculpa da diretora foi que eles podiam aleijar-se a brincar e que a jogar à bola já tinham partido um vidro.

    Perguntei à diretora quando é que eles podia brincar? Quando é que eles se podiam aleijar a fazê-lo? Quando tivessem a idade dela? Eu prefiro que ele se aleije a brincar do que babe em frente a uma televisão! Claro que o “aleijar” tem limites e por isso é que tinham que ser vigiados no recreio. Se não podiam jogar à bola perto das janelas, tudo bem, era compreensível, mas que os deixassem brincar e ir jogar à bola para o campo. A justificação que ela dava não me fazia sentido! Como é lógico vim a descobrir mais tarde que o problema era vigiarem os meninos no recreio… era mais fácil vigiá-los na televisão.
    Mas acabaram com aquilo.

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    1. E se partirem um vidro, pagam-o e até aprendem a ser mais cuidadosos e responsáveis. Regra geral, as minhas direções de turma, apenas levam bola se não tiverem ninguém com comportamento conflituoso ou alguém de outra turma que com eles se meta. De resto, levam o que quiserem. Como num instante ou acabo por o fazer junto deles e vou observando… É um momento muito bom para nos apercebermos daqueles casos que por vezes também temos que partilhar com a vossa profissão ou não, detetar os elementos mais sensíveis aos problemas dos outros nos quais posso confiar, tirar ideias para iniciar a aula, etc, etc. Curiosamente, como desde a M.ª de Lurdes até ao atual MEC, nenhum é professor (dizem que o são mas em nada o parecem), o tempo de intervalo entre as aulas é muito reduzido para alunos e professores. Ir ao WC, ser atendido no bar e comer é o máximo que consegues fazer! Isto, quando a escola tem bar de professores separado do dos alunos pois se assim não for, dado não achar éticamente correto passar à frente dos alunos, vou a barafustar para a aula seguinte. Embora, estimule os meus meninos, sejam eles ou não da minha DT, a levarem o lanche da manhã e da tarde de casa. Nada como os nossos velhos hábitos e como, sobretudo os do 5.º, o mais certo é ficarem sem conseguir lanchar, assim juntam o útil ao agradável.
      Algo que me faz confusão na escola onde sou efetivo, por causa da minha ideia do brincar e do estudar onde me sinta bem, é, quando DT, ter de obrigar os alunos, nas hrs livres, a frequentar a sala de estudo, onde fazem os TPC. A 1.ª turma que lá tive e cuja modelação de comportamentos foi difícil fiz como vinha habituado. Sabendo que em casa não tinham apoio e que muito tempo perdiam nos transportes, durante a hora de almoço brincavam e almoçavam. A menos que houvesse castigo. Depois, em função dos intervalos no horário, formavam grupos e comprometiam-se, assinando documento, a estudar num local a seu gosto: bar, cantina, jardim, biblioteca ou sala de estudo. E funcionou muito bem. Não gosto de os obrigar a ir para sala de estudo ou biblioteca pois, caso fosse eu o aluno, não me concentraria. Bem, na idade deles, e como atualmente são as bibliotecas, tudo bem. Agora em regimes de silêncio? Nãooo! Sempre estudei no café desde o 10.º ano, inclusive. :/

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  2. Posso imprimir e distribuir por uns conhecidos meus?!

    Há tantos mini adultos por aí que é assustador a quantidade de crianças que não sabem brincar que vão ser adultos daqui a uns anos…

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    1. Claro que podes. Tem a fonte biográfica.
      Evidentemente, que por não se deixar brincar na escola nem em casa, aquilo que não se viveu na infância nem na adolescência, irá repercutir-se na idade adulta. Não entendo a dificuldade em entender algo tão simples. O mesmo se aplica ao saber dizer “não”. Se os professores não o dizem, nem os pais, se não há a negativa no teste ou a descida da nota, como chego a adulto habituado a lidar com a frustração? Este é apenas um exemplo.
      Por que será que a criminalidade hedionda tanto tem aumentado no nosso país? Por causa da crise? Não, não me parece…

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        1. Sem dúvida!
          Os pais têm que ser “os fixes”.
          -“O professor levantou-te a voz por que te levantaste no meio da aula? Amanhã já vou conversar com ele. E diz que não sabes a tabuada do 2? Mas ainda só estás no 5.º ano. Tens muito tempo para a aprender. Vem jogar um jogo com o papá.”

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  3. Ui, só de me lembrar que subia e descia árvores de 10 metros, saltava muros, andava nas rochas na praia e trazia sempre os joelhos em ferida e pensar que muitas crianças não têm direito a isso…

    Curtido por 1 pessoa

    1. É o mesmo que “subscrever”, como fizeste com o meu. Aqui, clicas naquele botão na lateral superior… e eis que te surgem os menus. Pensa em juntares-te a nós. E que tal copiar a Sapinha que nos copiou? 👿 :p

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