À Minha Querida Mãe

diário
Mãe

Mãe

Quantos escrevem que as mães são fortes, exemplos a seguir, as mais bonitas e tantas frases feitas? Não, não o farei.

O teu triste fado começou com a rejeição dos sogros. Seguiu-se o nascimento do filho portador de deficiência, do qual muitos se afastavam nas consultas, dada a cor excessivamente amarela. Mesmo assim, nas noites em que procuravas acalmar o seu choro, estes aproximavam-se do quarto, dizendo que tudo era mentira. Desta forma, colocavam o teu marido contra ti. Até que a notícia foi dada: o bebé não viveria mais de um ano. E aos braços da avó materna partiu.

Decorridos dois anos, nasci. Com alguns problemas de saúde, o receio de nova perda tornaram-te excessivamente protetora.

Já adulto, no meu 1.º ano de serviço, cuidaste dos tais sogros até aos últimos dias. Tarefa não do teu agrado pois aqui não relato outras atitudes que para contigo tiveram.

Com um pai que é a vergonha de muitos, quando a avó começou a demonstrar comportamentos excessivamente inusitados, de mútuo acordo, tivemos que “raptá-la”. Afinal, estava em risco e a justiça é muito lenta. Cedi o meu escritório, que em grande parte perdi, e que o pai transformou num quarto de acolhimento. Passamos a não ter muitas noites de sono. O diagnóstico da Doença de Alzheimer foi traçado por uma equipa de vários especialistas. Deixaste de poder sair, desde que eu não estivesse em casa, de ter uma vida normal. Com o tempo, a medicação e aquelas estratégias junto da avó, esta acalmou. Mas mais estaria para vir.

Aquela que parecia uma borbulha, no teu rosto, como eu e a médica pensávamos, era afinal um tumor na glândula salivar localizada na mandíbula. Excelente trabalho o do cirurgião que apenas deixou a boca um pouco torta. Prótese dentária não podes usar. Neste espaço, eu e o pai sempre a cuidar da avó. Ainda bem que a Albertina mudava as fraldas.

Um ano passou.

Realizado o exame no qual soubeste que o tumor, por enquanto estava controlado, passado um dia, soubemos que o pai tinha um cancro muito grave. Desta fase, prefiro abreviar as etapas e palavras. Quando em tratamento, eras tu que o acompanhavas enquanto eu ficava em casa a cuidar da avó. Conforme a situação se foi agravando, já nada podíamos fazer a não ser levantá-lo do chão, tentar colocá-lo na cama, acalmá-lo, chorar escondidos e até mesmo pedir que a morte cessasse tamanho sofrimento. Com o internamento, sem dúvida que fiquei revoltado com o que vi, pois entendo mais do que tu. Paz ainda não encontrei. Como aceitar que um doente, seja meu pai ou não, morra em estado de decomposição, repleto de hemorragias, induzidas por uma biopsia desnecessária? Como aceitar que um doente, cuja medula não foi extraída para análise, onde alojado está o tumor, namorado seja a realizar um autotransplante? Quantas noites de terror passamos? Quanto medo do toque do telemóvel, do telefone,…  Até os gatos estranharam e a cadela que uma semana antes dele morreu.

Nesta fase e nas seguintes, valeram-nos os vizinhos. É incrível como depois de uma morte, sem atenderem à gravidade da mesma, exigem papelinho disto e daquilo. E assim já se passaram 5 meses, nos quais a avó, acaba por nos distrair. Aceitar não é de forma alguma fácil. É de todo curioso como existem pessoas que, após a morte exigem que estejamos a 100%. Isto, é mais evidente comigo. Quando os doentes são colocados a monte, em casas onde se morre aos poucos, e em alguns casos, infelizmente, entendo que assim seja, não numa aldeia, a dor não é como a nossa. O que viram? O princípio e o fim.

Esta és tu.

Estes somos nós.

Pela igualdade, pelos nossos valores e contra ditadores.

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2 comentários sobre “À Minha Querida Mãe

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