O luto antecipatório e o luto pós-morte

Artigos, diário, escrita

Apenas tive plena noção da morte do meu pai cerca de 1 mês depois desta ter ocorrido. Acentuou-se, perante um gesto mal intencionado de “um familiar” do seu sangue. Nessa altura, já era do meu conhecimento que o meu 1.º luto (antecipatório) tinha-se iniciado pouco tempo depois de me confrontar com o seu tipo de doença. Pensei que com a sua morte, este luto cessaria e depressão alguma se esbateria. Afinal, no caso de doentes terminais, entre outros,  muitas são as situações de 2.º luto: o luto pós-morte!

Vamos descobri-lo.

No caso das enfermidades graves, como o mieloma múltiplo do meu pai, em que há um envolvimento com os cuidados do enlutado, há uma conceção do processo antecipatório, ocorrendo o luto quando o ser ainda vive em virtude da debilidade física e psíquica. O sentimento ambíguo, de receio e vontade de que a morte venha aliviar o sofrimento é comum neste estado. Em alguns casos, a energia psíquica é centralizada no doente, durante um longo período, o que pode causar um vazio para os seus familiares, quando surge sua ausência. Parte destes sentimentos é consciente. Outros, mais dolorosos, permanecem inconscientes (Kovács, 2002).
O termo “Luto Antecipatório” foi utilizado, pela primeira vez, por Lindemann, por meio da sua observação de esposas de soldados que iam para a guerra. Posteriormente, esta denominação foi utilizada para pessoas que recebem o diagnóstico de doenças terminais e o envolvimento da família nesta perda. Seja prolongada ou repentina, quando em decorrência de doenças prolongadas, esta é considerada stressante para as famílias e desencadeia um mecanismo de
enfrentamento diferente. Quando uma pessoa morre inesperadamente, os membros das famílias carecem de tempo para antecipar e prepararem-se para a perda, para lidar com assuntos inconclusos ou, em muitos casos, até para dizer adeus. Quando o processo de morrer é prolongado, os recursos financeiros e a prestação de cuidados da família podem-se esgotar, e as necessidades de outros membros são colocadas suspensas. O alivio com o fim do sofrimento do paciente e da tensão familiar costuma vir carregado de culpa e cada vez mais as famílias estão no penoso dilema: em manter ou não o prolongamento, a manutenção da vida. Por se tratar de pacientes crónicos com doenças terminais, sem recursos para cura e à mercê de dores crónicas, perdem a esperança de uma possível recuperação.
Rando (2000) identificou diferentes opiniões em seus estudos sobre o tema por outros pesquisadores, sendo que, para uns o efeito do luto antecipatório pode ser positivo, pois há oportunidade de uma prevenção primária de modo a evitar o luto complicado na pós-morte, e outros julgam negativo, pois este pode conduzir a uma perda prematura. Contudo, a autora afirma que se trata de um fenomeno real e que estas discrepâncias são frutos de diferenças nas definições, dadas as falhas na apreciação da complexidade do fenómeno. A autora distingue ainda o luto pós-morte quando se discute o fenómeno psicossocial. Neste caso, um exemplo é a ambivalência dos sentimentos dos familiares e do enlutado de negação e culpa.
O luto antecipatório pode ser entendido, analisado e experimentado por quatro perspetivas distintas, sendo cada uma pertinente a cada pessoa que o experimenta:

1. Perspectiva do paciente: sendo ele a figura central do drama, desempenha o papel do doente e do enlutado;
2. Perspectiva dos familiares: refere-se à rede social com quem o paciente tem intimidade;
3. Perspectiva de outras pessoas: as pessoas que tem algum tipo de relação, porém pouco interesse e vínculo com o paciente enlutado;
4. Perspectiva do cuidador: para este, o luto pode variar consideravelmente, de acordo com o nível de e significado do relacionamento dele com o paciente.

Analisando todo contexto, cada elemento que participa deste luto precisa ser ouvido e respeitado. Cada um destes possui pensamentos, sentimentos, valores, princípios e crenças e deve-se ter o cuidado para que isto não influa no tratamento do doente afim deste não sofrer outro choque num momento tão crítico (Fonseca, 2004).
No luto antecipatório há três focos temporais envolvidos: o passado, presente e futuro. Para o paciente nesta situação, o sofrimento de perdas vivenciadas no passado pode retornar, e para o familiar, além de lidar com a conscientização da perda no presente, irá ter de lidar com as perdas futuras diante da falta do ente querido em ocasiões especiais e memoráveis.

Adaptado por Paulo Vasco em 18/01/015 de Caterina, M. C. (s/d). O luto: perdas e rompimento de vínculos. Vale do Paraíba: APVP, pp. 17 e 18.

Na luta contra o cancro, o meu pai partiu, no dia 20/11, às 9h.45min...

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8 thoughts on “O luto antecipatório e o luto pós-morte

  1. A tua dor renasce em cada dia,fazendo-te reviver momentos de muita tristeza e contradição. O pesadelo já passou. Agora nem tu nem ninguém poderão alterar a história. Nem a escolha dos acontecimentos nem todo o final silencioso foi programado por vós.
    Hoje, olhando para esse passado, as dúvidas continuam contraditórias, mas subsiste dentro de cada um dos intervenientes uma imagem do dever cumprido, dos cuidados possíveis e do acompanhamento constante e sempre carinhoso.
    Penso que este estudo é o resultado de muitas consultas e de muitos estados vivos que lavram dentro de todos quantos sofrem estas dores.
    Será importante ter conhecimentos das origens desse luto para o ultrapassar.
    Hoje já nada se pode fazer para alterar as situações. Assim devemos levantar a cabeça e continuar a viver conscientes do dever cumprido.
    Saudações amigas.

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    1. De facto, tens razão: o dever foi cumprido.
      Hei de conseguir ultrapassar este momento. Vou conseguir!
      Sabes, nele não vejo apenas o meu pai mas quantas outras pessoas, irão passar pelo mesmo processo, porque os os médicos ficam impunes. Louvável foi o trabalho da equipa de enfermeiros. Mais humana e em muitos aspetos, mais conhecedora do sofrimento.
      E o que dizer dos falsos afetos que nortearam toda esta situação? Aqueles que são capazes de, socialmente, falar do que ele sentia ou como estava, para bem ficarem “na fotografia”, pois nunca o viram antes nem depois do autotransplante; logo, muito menos no período crítico? Embora já internado, num período de lucidez, ao ser abordado pela ausência dos familiares de sangue, a uma das minhas vizinhas respondeu: -“Sabes, a minha família é muito pequena: tenho a minha mulher, a minha sogra doente e o meu filho!”.
      Talvez por isso, a sua partida, tenha sido um alívio para esses “de sangue”. Sim, conflitos com ele eu também tive e quase todos estão escritos, mas sem falsidade nem representação. A verdade é que não obstante tenha morrido demente, não tanto quanto já tinha estado, manteve um grau de inteligência considerável.

      Abraço Luís.
      Tu sim, para mim és muito mais do que esses “de sangue”.

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    1. Creio que aqui tudo está relacionado com aquilo que vi e sempre procurei ser forte, para que minha mãe tivesse força e minha avó não piorasse da doença de Alzheimer. Agora, a fase agressiva já passou mas continuo a não querer ver pessoas pois sinto-me horrível: a pessoa mais feia do mundo. Sobretudo, porque esse sentir vem de dentro! Abraço-

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  2. Nossa, posso dizer que estou passando por isso. Passei pelo luto antecipatorio (so nao sabia que existia um ‘nome’ para a situação), e foi muito rapido pois meu ‘velho’ ficou 20 dias internado e partiu na primeira quinzena de abril desse ano.
    A proposito, sobre seu pai, mesmo tempos depois, sinto pela sua perda…

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    1. Obrigado pelo seu testemunho, Carolina. Na altura, também eu desconhecia as designações e nunca pensei que pudéssemos passar por ambos. Muito menos, a existência de tamanha crueldade e frieza por parte da sociedade para connosco.
      Desejo-lhe muita Luz. Que a sua história não seja como a minha. Guarde as boas memórias, por muito difícil que seja.
      Uma vez mais, o meu obrigado pelos seus votos.
      Grande abraço,
      paulo

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