Cumplicidade até à última gota de vida

diário, escrita
Meus pais, nos HUC, no dia 31/10/14. A cumplicidade. Os seus últimos dias.

Meus pais, nos HUC, no dia 31/10/14. A cumplicidade. Os seus últimos dias.

Há dois anos atrás, exatamente nesta altura do ano, a ela foi diagnosticado um tumor, numa glândula salivar, na mandíbula. A seu cargo, a mãe, portadora da Doença de Alzheimer, rejeitada/esquecida pela outra filha; árvore sombria, de seivas adocicadas, atraentes e corrosivas.
O tumor não a derrubou.

Do seu passado, a luta perdida pela sobrevivência do primeiro filho, portador de deficiência. Em simultâneo, a interferência nefasta dos sogros, capazes de induzir o marido à agressão. Um luto não realizado. Uma vida de submissão, por forma a evitar o ambiente no qual cresceu: discussões, violência doméstica, um pai que todo o dinheiro gastava com amantes, o esforço da mãe para sozinha criar as filhas, a vergonha das bebedeiras do pai, o não poder conviver com as da sua idade,…
O cancro foi por ela interpretado como um novo obstáculo no seu caminho. Ergueu a cabeça e nem a deformação no rosto, decorrente da intervenção cirúrgica, a demoveu. Uma das suas prioridades consistia em dar continuidade, com a maior brevidade possível, aos cuidados prestados à mãe, acamada e demente.

Passado um ano, o seu linfoma (?) parecia controlado. No entanto, mantém-se como doente oncológica, submetendo-se, com regularidade, a observações e exames. O regresso da sua doença pode marcar um ataque fatal ao sistema linfático. Em família, um dia de descanso, sem o demoníaco Cancro, até que ela e o filho foram informados que o marido e pai, respetivamente, era portador de mieloma múltiplo. Dado o perfil psicológico deste, não obstante as vivências na marcante, severa e injusta Guerra do Ultramar e a rigidez quase militar da sua conduta, a nova realidade teve de lhe ser escondida durante 1 semana. Afinal, também ele chorava, tinha medo e era ansioso. O duro e mau era uma máscara que utilizava, ainda que com marcas de traumas de Guerra. Perante o confronto com a realidade, eis uma postura oposta à da mulher, com enormes e profundos episódios depressivos. Estes, em nada ajudaram nas fases mais acentuadas da doença, durante as quais a sua locomoção foi penosa e dolorosa, inclusive ao olhar.

Importa referir que o filho sofreu discriminação, no local de trabalho de então, dado a avó ser portadora da  doença de Alzheimer e o cancro ter afetado o pai e a sua mãe. Não por todos, saliente-se. Não deixa de ser curioso quando esse local e o meio é formado essencialmente por professores, supostamente, com formação académica superior.  Para muitos, a Doença de Alzheimer consiste em sucessivos esquecimentos.  Para outros (poucos), um filho de portadores de doença oncológica é também portador e o cancro transmite-se como uma doença contagiosa. Por parte de uma hove tentativa de exercer Bullying.

A quimioterapia foi a primeira etapa do tratamento. Trouxe esperança. As dores diminuíram de forma bastante significativa. O doente já era capaz de dormir quase toda a noite. Por casa, deixou de aparecer nas posições mais inusitadas que encontrava para aliviar a dor. Os ossos mantinham-se frágeis. Então, chegou o aclamado e tão divulgado autotransplante da medula óssea. O seu organismo aceitou bem a técnica levada a cabo. Após o isolamento em meio hospitalar, assim se manteve em casa. A mulher e o filho desdobraram-se em esforços, cuidando dele e da mãe/avó. Ninguém teve férias (leia-se “descanso”). Todos os dias obedeceram às mesmas rotinas. A 10 de setembro deste ano, os primeiros sinais de demência. De início, não facilmente decifráveis. Mas a forma impiedosa e veloz com que se propagou, enquanto o doente se recusava comer e a fazer a medicação; adotando comportamentos agressivos, quando contrariado, ditou o diagnóstico Quantas foram as quedas, as camas feitas e refeitas, dada a recusa em usar fralda, os esforços para levantar um corpo tão leve mas que parecia sem poder de articulação, as cenas dignas de um filme de terror como se de casos de possessão se tratasse, os momentos entre mundos paralelos ou não ao  nosso;…

Com o internamento, a morte anunciada: o autotransplante fez aumentar significativamente, o número de células cancerígenas. Eu, filho, nunca concordei com a sua realização mas a sua esperança era tanta que não me senti no direito de o demover. Certo é que, numa esperei consequências tão dramáticas. As médicas também não o disseram. Ah, certamente constará num daqueles documentos que assinou, com letrinhas bem pequeninas. Numa consulta, na qual estive presente, falou-se na intenção de dar “qualidade de vida”. Este conceito, em oncologia, certamente é diferente do adotado nas restantes áreas científicas!…

Ela, quase religiosamente, sempre que pode, vai visitá.lo. O Hospital ainda fica distante, no distrito vizinho. A noite passa-a entre pesadelos e sobressaltos. De uma vida partilhada a dois, com maus e bons momentos, parece querer agarrá-la até ao último segundo, como “programado”. Está perdida em si, desamparada e assustada. Não se abre, nem chora… Mata-se aos poucos.

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4 comentários sobre “Cumplicidade até à última gota de vida

  1. Bom dia Paulo
    Mais um grito de dor. Consegues ainda transpor aqui a tua desilusão por cada dia e cada noite sofridas nesse calvário. Parece-me ainda que essa realidade que vives é um pesadelo, e é também uma parte de ti que se esmaga a cada momento.
    Não tenho o direito de te dizer – Tem coragem.
    Outras palavras não sei nem conheço.
    Muitos dias peço a Jesus que te dê forças. Que te aconchegue o coração sofrido.
    Tenho Fé. Acredito que Ele pode ajudar-vos a suportar estes momentos.
    Vai-Lhe entregando as tuas dres e angustias.
    Quanto aos teus colegas de profissão, apenas demonstram insensibilidade humana.
    Como poderão eles sofrer a fome dos alunos sem nada para se alimentarem….?
    Como poderão eles sentirem o que é a fome de um beijo ou de um abraço com o olhar….
    Este mundo está cego…

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    1. Olá, Luís.
      Estou cansado. Muito cansado.
      Desiludido não deixa também de ser um termo correto. Estranhamente, se por um lado começo a aceitar as evidências, por outro, culpo quem não deixou de colocar pedras demoníacas no meu caminho, podia ter feito o que não fez e quem aplicou técnicas a uma cobaia humana; sem consentimento prévio.
      Quarta-feira dar-se-à um período de “alta médica”. Qual alta? Dizem que não sobrevive mais do que x dias, depois não sabem se o mandam para casa ou para o Hospital do distrito de residência. Simplesmente, brincam com a condição humana. Não basta o brilhante resultado que obtiveram ao dele terem feito cobaia para treinar a técnica do autotransplante de medula? Em casa, como cuidaremos a hemorragia? Ou esta deixou de existir? E os episódios de demência, durante os quais o prendem? Voltaremos a passar noites em claro, tal como as de agora, receando um telefonema, apanhando-o do chão e sujeitando-nos a murros quando está noutro mundo? E a medicação que deita fora e a comida que se recusa a ingerir?
      Definitivamente, acabe-se com a política. No estado em que se encontra a educação e a saúde neste país, independentemente de no governo predominar a cor laranja ou rosa, o que todos querem é tacho.
      Esses colegas do passado, que espero não voltem a fazer parte do meu presente mas se assim for mais forte estou para os receber, fazem parte dos mais bem vistos na Escola. Agora é assim: o importante é saber fingir perante os superiores. Os alunos nem são ouvidos! Sobretudo os de aldeia. Claro que me refiro a uma Escola específica mas outras idênticas há.
      Abraço.

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