Doutores “Tenha Calma”

diário, Eu & o blogue

A noite perpetuava-se na escuridão e no calor de um estranho verão esboçado fora do tempo. De um sono leve mas profundo, acordei ao ouvir: -“Acudam, acudam,… acudam aqui! ”
Não podia acreditar…
De novo, a intensa manifestação da demência do meu pai, portador de cancro, a qual se desenvolveu poucos meses depois do autotransplante de medula óssea. Desta vez, no seu quarto, debaixo da cama, rastejando pelo chão.

Mieloma múltiplo

Mieloma múltiplo

Com fortes dificuldades de locomoção, na sua alucinação, ele deparava-se com um autocarro acidentado, junto ao qual procurava salvar pessoas. A mim e à minha mãe não via. Daquele mundo não fazíamos parte! Momentos passou à janela, de novo voltou a partir o candeeiro da mesa de cabeceira, até que foi necessário intervir, procurando chamá-lo à realidade. Por entre o desespero e pedidos de ajuda, totalmente “espalmado” no chão, entrou numa zona de risco, onde se poderia magoar mortalmente.

Deformação óssea no mieloma múltiplo

Deformação óssea no mieloma múltiplo

Outra vez: ao socorre-lo, retirando-o de parte daquele mundo só seu, um soco foi sentido na perna da minha mãe.

Ela, que também por um cancro (linfoma) passou, há 2 anos. Nós que da minha avó, portadora da doença de Alzheimer somos cuidadores.

Perante a chamada de atenção – “Tu precisas de mim. Não podes continuar agressivo como eras!” -, uma mão estendida, passados minutos, num gesto de perdão e/ ou piedade, pedindo auxílio para o levantar. O gesto e o olhar de uma criança  inocente, no corpo de um adulto de 68 anos.

A degradação humana a que se assiste, naquele que outrora foi um homem ativo e independente está ainda mais vincada no aspeto físico. Perante os pedidos de ajuda, na consulta de oncologia, e tendo sido opinião da psiquiatra de que a demência pode estar a ser causada por uma infeção interna, nesta a minha mãe apenas ouviu, das senhoras doutoras: “tenha calma”! Atos, apoio psicológico, medidas, propostas de tratamento, palavras de incentivo ou conforto; não, isso não. Hoje é a avaliação dos cem dias do autotransplante de medula. Para quê? As evidências permitem a qualquer leigo tirar conclusões.

Com a intervenção citada, prometeram maior “qualidade de vida”. O que entendem estas “senhoras doutoras” por “qualidade de vida”? Aumentar os dias, meses ou anos do doente, neste nosso mundo, ainda que mentalmente insano? Estudar o doente para melhorar a aplicação da técnica?

Por que insistem em esconder que poucos são os dias, meses e/ou anos que lhe restam? Pelo menos, para connosco, uma médica, cuja especialidade não indicarei, já o fez! E agradecemos.

É deste tipo de médicos “tenha calma” ou “esconde o óbvio” que o nosso país precisa? Que precisamos? Nós não!

É para formar “tenha calma”, “não assumir os erros”, “esconder o óbvio” e “sem humanidade” que as médias de ingresso, nos cursos de medicina, são tão altas?

À semelhança dos professores, no 12º ano, existem vários pré-requisitos que avaliados podem ser, por forma a permitir a candidatura a medicina ou à via ensino. Por exemplo, em comum, a capacidade de comunicar, de modelar o discurso em função do público, a sensibilidade,… Provas de ingresso na carreira, para quê? Afinal de que servem as instituições de ensino superior? Apenas precisam de inspeção como as dos restantes graus de ensino. Agora, tanto trabalho e anos de estudo para termos médicos(as) especializados(as) em “tenha calma”?

Saberão o que é viver 24h com um doente de cancro demente (ou em período de)? Saberão que este doente requer uma vigilância mais minuciosa, à semelhança de um bebé?

Saberão que nem todos têm posses para contratar pessoas para ajudar nos trabalhos extra? Ou, até mesmo, que não obstante a taxa de desemprego, muitos são os que se recusam trabalhar com doentes de cancro, Alzheimer, Parkinson, etc.? É que não é fácil!

Felizmente, temos também médicos que não são especializados em “tenha calma”. Aqueles que se formaram por vocação e desenvolveram o lado humano.

Urge denunciar os senhores doutores “tenha calma”. Se competência não têm, se sensibilidade não têm, escusado é serem os mais novos a emigrar!

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5 comentários sobre “Doutores “Tenha Calma”

  1. Bom dia
    Como eu te entendo e a esta tua revolta. Paulo, mas se não tiveres calma, serás também afectado por toda esta situação.
    As coisas transcendem-nos e não aprendemos ainda a fazer milagres.
    Procura apoio Social do hospital ou da tua área de residência.
    Cuidar destes doentes é uma luta contra as grandes intempéries que não conseguimos vencer nem parar.
    As melhoras dos teus pais e avó.

    Os médicos também falham e muitos enganam-se regularmente…

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    1. Olá, Luís.
      O meu pai já está internado, desde quarta, nos HUC. Não me reconhece e raramente a minha mãe. Tudo está alterado.
      A situação é grave mas os médicos não nos podem dar uma previsão do tempo de vida: 1 dia, 1 semana, 1 mês, 1 ano, 2 anos…
      Tem sido horrível 😦

      Abraço

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