A merenda da manhã

diário, Eu & o blogue, fotografia

Num curto espaço de tempo, já que este voa, enquanto eu e a minha mãe voamos ofegantes entre o Centro de Saúde, farmácia, laboratório de análises clínicas e supermercados, durante a manhã de hoje, por forma a melhor podermos cuidar da minha avó, portadora da doença de Alzheimer e do meu pai, portador de mieloma múltiplo, recentemente submetido ao autotransplante da medula óssea, um mimo já esquecido: o caracol.

"Lunch" by Paulo Vasco @ O Pão Quente - Sta Comba Dão

“Lunch” by Paulo Vasco @ O Pão Quente – Sta Comba Dão

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10 comentários sobre “A merenda da manhã

  1. Oh,fiquei feliz 🙂 estes mimos deviam ser frequentes, vocês merecem! O que estão a passar não é nada fácil, por isso façam essas pequenas merendas sempre que vos apetecer! A minha avó também tem alzheimer…é tao triste, tento nem pensar no assunto…a fuga é quase sempre a minha opção :\ às vezes penso que sou egoísta, mas não sou capaz de olhar para ela muito tempo…não a reconheco naquele corpo,ja nao é a minha avo…

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    1. De início, foi muito, muito, muito doloroso!. Quando soube que a minha avó tinha Alzheimer, encontrava-me “trancado” numa quinzena de neve,que se podia estender, em Cinfães. Pensei que, ao regressar, ela já não me reconheceria. Escrevi “No mutismo da despedida“, um texto que consta deste blogue, datado talvez de novembro de 2011. Um dos meus melhores mas mais sofridos textos. De início, com violentas crises, era impossível dormirmos e ficarmos indiferentes. Por “sorte”, ficou acamada quando o quadro se tornou mais doloroso durante estas mesmas crises. Aos poucos, acabámos por nos habituar e encontrar estratégias. Por exemplo, se diz que está a ver um bonito gato verde, de nada adianta contradizer. Representamos e como se também nós fizéssemos parte desse mundo, elogiamos o gato. Com o passar do tempo e medicação, estas crises tão graves foram diminuindo em frequência e intensidade. Com o meu destacamento, estas tem sido pouco frequentes. Claro que nem sempre se lembra dos nossos nomes, embora comigo tal ainda seja muito raro. À minha mãe, sua filha, chama “mãe” 🙂 Mas enquanto eu ainda ainda lecionava em Cinfães, sempre que vinha ao fim de semana, no dia em que me ia embora, ela tinha uma crise, que quase sempre durava durante toda a semana, sem nunca dormir. Eu, longe e num meio inóspito ao qual nunca me adaptei, sentia-me culpado e acabava por faltar às aulas, quase sempre, com diarreia alternada com prisão de ventre, desencadeadas por uma grande sensação de culpa, que poucos entendem. Como se não bastasse, no ano seguinte, veio o cancro da minha mãe. Mas isso é outra história.
      Com o doente de Alzheimer temos que ter muita calma, falar baixo, não o submeter a mudanças ou sons elevados… Das estratégias, normalmente sigo o que o coração me diz e que normalmente vai ao encontro da psicologia aplicável a crianças: estimulação, estimulação, estimulação. Mas tenho noção que o futuro não será feito de avanços. Pelo contrário. A doença é degenerativa 😦 E tudo acontece de um momento para o outro, sem que estejamos à espera. Assim aconteceu quando esqueceu o nome dos meus pais: um dia, de manhã, não se lembrava!
      Ao citares o teu “egoísmo”(?)… Eu fugi ao envelhecimento dos meus avós! Doía-me ver, sobretudo no caso da minha avó, os ossos das pernas que pareciam já não suportar o corpo, a fragilidade, o não vir a minha casa, que é muito perto, por não conseguir subir as escadas… Mecanismos de defesa associados a alguma timidez. Creio que o importante é estarmos presentes quando necessário. :/ Mas quem sou eu?

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  2. Bom dia
    Já falámos disto. Uma vida muito dura. Só quem passa por lá a pode descrever. Como não tenho outras palavras apenas te digo Coragem.. Força. Ânimo.
    A vida também passa por esses dias de dor e sofrimento. Porque não fazer assim uma merenda?
    Podemos trocar as voltas ao destino e colher rosas nos olhos que nos procuram.
    Podemos oferecer o afago e a maciez das nossas mãos para que nos sintam e se deliciem no perfume dos gestos delicados.

    Sinto uma lágrima perdida na impotência de te poder ajudar.

    A tua escrita é um grito SOS.

    Blogue – Vou tentando descobrir e aplicar as tuas ajudas, mas não está a ser fácil.
    Não gostei daquela foto que me indicaste.Usei esta que mais simples e impessoal. Depois de publicar alguma coisa isso deixa de ser nosso ou de nos pertencer. Será teu ou de qualquer pessoa que o lê e o entende como uma brisa mais fresca que nos entra em casa.

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    1. Grato pela tua presença e amizade, Luís.
      Ao contrário de outros, que meus “amigos” se dizem, não me viras as costas nem me mentes ou não respeitas o meu tempo e as atuais vivências; como outros.

      Acredita que uma simples palavra, é já uma ajuda!

      No teu blogue podes utilizar as minhas fotografias à vontade, como sabes. Preocupa-te é com a indicação do autor da foto, para que não venhas a ser acusado de plágio. Por outro lado, centralizar as fotos ou dar-lhes outras dimensões, dá outro destaque ao post 😉
      De facto, não é fácil de aprender à 1ª. Recordo-me do meu início… Agora faço quase num ápice.
      Abraço.

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  3. Paulo, que bom aspecto. 🙂

    Não há palavras que mitiguem a tua dor. Duas doenças complicadíssimas e demasiado próximas, uma avó e o pai. Inevitavelmente, sofres com eles, daí que alguns comecem (até que enfim!) a preocupar-se com as consequências que estas doenças, que se arrastam no tempo, têm nos familiares mais chegados ao doente.

    És um homem muito corajoso e forte. Há anos que enfrentas uma dura prova de resistência.

    um abraço grande e que possam ficar todos “bem” na medida do possível!

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    1. Muito obrigado, Mark.

      Curioso, os meus alunos também me consideram forte. Não pelo volume mas como com eles tenho uma relação sincera, assistiram, na sua maioria, a hipócritas tentativas para me derrubar, … por parte de outros professores. Que feio! Mas assim fosse eu, ser tão inusitado. 😥
      Contudo, o mérito é sem dúvida da minha mãe. Não sei como suporta tanto sofrimento e o ar que o meu pai dela consome sem cair. Já eu, por vezes, como desde quarta, mergulho no cinzento 😳
      Porém, asseguro-te que dias há em que tudo está bem dentro do possível. Mesmo pensando nos demónios e nas serpentes néscias e decadentes que entre outubro e janeiro decidiram tentar injetar-me veneno letal. A decadência não assiste os portadores de Alzheimer ou cancro nem cuidadores. Assiste sim os preconceituosos e ignorantes 😯

      Abraço

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  4. É um bolo que adoro e que poucas vezes me atrevo a comê-lo, em honra da linha, aquela que as senhoras muito tentam manter, em nome de quê, em nome de quem. manias, digo eu.
    MAs aquelas frutas cristalizadas, são uma paixão. Amei este tão simples e no final, tão dramático post.

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    1. Na altura, já não comia este bolo há anos! :/
      Onde lecionava não o encontrava e em Santa Comba Dão, creio que apenas onde o fotografei e comi, é onde o vendem, assim, tão apetitoso. Nos outros cafés/pastelarias onde costumo ir não há. Já em Viseu, é “típico”.
      De facto, recordo este momento com mágoa: eu e a minha mãe quase não nos podíamos ausentar de casa. Este foi um dos pouquíssimos momentos de descanso a dois. Dez a quinze minutos no máximo. Não mais. Tanto esforço, tanta dedicação, tanto sofrimento… Ainda não sabíamos o que estava para vir.

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