Naquele quarto: Maria e João

escrita

Texto para maiores de 18 anos

Acordou.

Levianamente sorriu.
Ao seu lado a maciez dos cabelos combinava com a doçura da personalidade, e o volume destes com o das mamas nas quais se perde, provavelmente num regresso à infância.

No quarto, todo o cenário era caótico, combinando assim com as cortinas cor de fogo que um dia foram da cor do amor.

Sentiu-se excitado. A lingerie dela completamente rasgada, os lençóis na forma de algemas, os objetos de cabedal, aquela pequena navalha, as garrafas de um vodka vulgar e os seus idolatrados dildos. Não, ele não procurava nas prostitutas o que em casa podia ter; pelo menos assim o dizia.

De pouco se recordava da noite anterior mas ainda sentia o intenso prazer anal que ela lhe dera ao penetrá-lo com os dildos.

As recordações impulsionaram o sangue no seu pénis que assim se ergueu louco de desejo. Deu início a movimentos de prazer procurando a mão dela. Uma mão que reparou estar fria e inerte.

-“Ou bates-me uma ou enfio-te um murro nos cornos! Queres senti-lo dentro de ti não é, sua vadia?” – gritou entre tons de prazer e um ódio contido que se libertava -“Faz-me vir!”

Ao dizer estas palavras, não detetando qualquer reação, procurou penetrá-la, num ato frio e desprovido de sentires, ficando frente a frente com o seu rosto.

A maciez que sentira nos cabelos dela foi esquecida, bem como o tom de pele acetinado ou a doçura da sua voz e gestos. De repente, naquele quarto fez-se sentir o vento que ecoou e levou a bailar as cortinas ao encontro das paredes de madeira, tomando por como par as manchas que não deviam fazer parte daquele cenário.

Agora tudo era claro…
Naquele jogo a dois, ao ser penetrado, Maria possuída pela força do álcool, não controlando as suas palavras e evocando os espíritos que tudo lhe permitiam dizer sobretudo se retidas desde há anos, gritou chamando-o, num momento alusivo a uma profunda penetração: – “meu grande paneleiro de tomates da Feira da Ladra”. Assim, se vingou, sem mentir, na sua forma de pensar, da razão e das marcas pelas quais, na semana passada, abusou da maquilhagem no rosto e usou aquela écharpe italiana, belíssima mas desajustada à temperatura que se fazia sentir, naquela festa que até foi transmitida num canal televisivo. Conseguiu passar pela red carpet e disfarçar mas mais do que as marcas físicas, muitas vezes esquecem-se as psicológicas.
Ele, procurando mostrar o que chamam de “virilidade” não quis continuar a por ela ser penetrado e domou-a, adotando a posição de missionário. Assim, ela voltaria a propriedade sua.

Mas Maria insistiu dar continuidade às provocações ou, por outras palavras, às suas verdades.
Durante a cópula, na nova posição, dada a permanente falta de originalidade dele e a sistematização de procedimentos proferiu, ainda que sentindo prazer:
– “As minhas mamas recordam-te as da tua mãe, não é meu cínico? Por isso adoras chupar os meus mamilos mas por tão pouco tempo. São as recordações de infância ou adolescência, sei lá!— Ah, isso… entra bem dentro de mim…” – sussurrou gemendo, enquanto lhe apertava as nádegas, firmemente, com cada uma das mãos, procurando penetrá-lo com um dedo, como se assim o quisesse imobilizar. -” Apenas sabes dar-me prazer quando entras dentro de mim e nada mais. Ela roubou-te a inocência e a infância! Já tu,…receias admitir que és bicha, como o teu primo Zé!”.

A relação entre ambos sempre foi conflituosa, marcada por sexo, violência doméstica, a dependência monetária dela em relação a ele e a famosa “mulher objeto”, para tantas um modelo a seguir quando nas capas de revista e para ele, aquela que o afirmava como homem perante a matilha . Maria não tinha família. Enquanto casal, não tinham residência fixa e pautavam pelas aparências. Uma vez que ele pertencia a uma tradicional família da linha de Cascais, as festas de Jet7 eram de presença obrigatória.

Após as palavras de Maria, nada mais se fez ouvir.
Por essa razão, agora está de frente para o rosto dela verificando que não tem olhos nem mamilos. Também o hímen lhe foi cortado e lançado contra uma das paredes ficando um esboço semelhante a um rio de tinta nada tem. Nunca uma navalha tinha sido tão útil para calar aquela que, pelo menos uma vez por semana, espancava ao murro, à bofetada ou com o cinto. Desta vez, a sua doce cabra ficara imóvel e desfigurada.

Ele, cheio de sangue, prostrado sobre ela continuava.
Teria esta sido a sua intenção? Como se afirmar agora junto da matilha? Como sair dali e esconder o óbvio? Como esquecer uma noite ainda fragmentada na sua memória, mas suficientemente relembrada para montar as peças?
Não sabia o que fazer. Talvez mutilar-se, como lhe fez.
Por que razão foi ela falar do assédio sexual da sua querida mãe? Ele era ainda tão novo… Como terá descoberto? O pai nunca soube de nada e aquela relação incestuosa mantinha-se, para grande sofrimento seu, o que dificultava disfarçar o repúdio que sentia por aquela tão conhecida senhora da sociedade portuguesa. Como é que nunca nenhum professor desconfiou? Nem os tios e primos… Certamente Maria terá discutido com ela e ouvido o que ele nem sequer imagina daquela incestuosa e pedófila, sempre envolvida em tantas causas nobres de ajuda ao outro.
Lágrima nenhuma escorria e o arrependimento não fazia parte dos seus sentimentos. Ali continuava prostrado sobre aquele corpo frio e hirto…

Assim se fez noite para depois se fazer dia.
E este ciclo repetiu-se duas outras vezes.

O toque do despertador fez-se sentir.

– Hummm, que preguiça! – disseram em uníssono, ao acordar Maria e João naquele quarto iluminado, não obstante as cortinas da cor do amor, com cheiro a flores e as melodias de pássaros que vão passando pela varanda.

Nus, num jogo de sedução, Maria levantou-se e dirigiu-se ao chuveiro, convidando João para um duche de sensações partilhadas. No entanto, este pensa em como dizer à mulher que mantém um caso amoroso com o cunhado, o Zé,irmão de Maria, o qual lhe estipulou como prazo máximo as 9h da manhã de hoje.

Na mesa de cabeceira, um canivete de prata brilha…

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