Retalhos (parte 2) – o rádio

diário, escrita

Os dias prolongavam-se infinitamente.
Nas férias do verão, em casa da minha avó, durante as tardes quentes, com o velho rádio do avó procurava estações que transmitissem apenas música. Naqueles tempos, não era fácil: existiam apenas as monótonas estações estatais e 2 ou 3 regionais, talvez clandestinas. Era nestas que centralizava a minha atenção, enquanto os meus avós e vizinhos faziam a sesta. Nos programas de “discos pedidos” viajava às épocas de 60/70. Satisfazia assim a minha paixão pelas línguas estrangeiras, criando traduções com significados desajustados, cantarolando apenas com ritmo, julgando conseguir falar inglês ou francês.

Estendiam-se as tardes, naquele calor sufocante, onde me escondia por entre as plantas da sala da minha avó, espreitando sempre a casa do vizinho (não fosse o Carlos já ter acordado para que puséssemos recomeçar a brincar).

Em mente tinha as indicações (exigências) da minha mãe, impostas desde tenra idade: -“Não te quero com meninos mal educados, não deves bater em ninguém, ficar longe de casa, nem dizer palavrões. Já viste como são o A, B e C? Que feio é ser assim!”. Com receio de me vir a tornar semelhante ao meu avó ou irmã da minha mãe (o que apenas aos 18 anos compreendi), muitas vezes, pela hora de almoço, durante ou após as hilariantes novelas brasileiras da Globo, recebi a inesperada visita do meu pai. Quase sempre tremia de medo… Com ele não conseguia discernir de forma assertiva acerca dos meus atos. Por outro lado, eu escondia um lado “terrorista” traduzido em experiências com eletricidade, substâncias inflamáveis e na procura das combinações dos cofres. Ser descoberto corresponderia a mais do que uma semana de castigo, como aconteceu com um rádio que avariou e tentei compor, cortando fios, serrando partes metálicas e ligando-o à corrente para ver as cores e os vapores que os fios libertavam… Esta foi uma experiência com a qual ganhei: 1 semana de surras diárias e… 1 ano sem poder dormir no meu quarto, pronto a estrear, ficando no de arrumações.

Mas os livros (proibidos ou não), gavetas e a música continuaram presentes…

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