A ponte

diário, educação
Meninos da Jamaica por TPSDave

Meninos da Jamaica por TPSDave

O infinito do seu azul não era suficiente para libertar as palavras em si guardadas. Desta forma, compulsivamente, deu continuidade ao choro, tão seu.
O rosto, de suave tez, invadido foi pelos envergonhados raios de sol.
Da persistência, os seus lábios começaram a querer soltar os primeiros murmúrios. Mas o vento em si era tempestade!
Num breve momento de acalmia, fez-se ouvir: -“O meu pai está preso!”
O vendaval redesenhou-se e a chuva intensa logo se fez sentir, acompanhada de intensas rajadas. Molhado por aquela nuvem de lágrimas, o melhor amigo, também pré-adolescente, num choroso e profundo lamento, a ele se dirigiu, no seio da turma: -“Sabes X, também a minha mãe foi presa no estrangeiro, à minha frente, quando ainda eu era pequeno. E sem nada ter feito”. Deixei que contasse a sua história de vida à turma, intervindo sempre que necessário, enquanto X sentado estava na minha perna, agarrado ao meu pescoço. Frequentemente chamava-me “pai”.
 
Poucos minutos passaram para que, mesmo à minha frente, Y começasse também a soluçar, chorando de saudade. Aos poucos, numa cama, a sua mãe foi morrendo, durante algum tempo, sem que ela o entendesse. A separação entre o corpo e a alma dera-se naquele verão. A morfina deixara de ser necessária e talvez já soubesse para que servia.
Perante tão sofridos vértices, deste triângulo, que abraçados ficaram uns aos outros, em redor do meu pescoço,  a todo o custo, evitei ser o próximo ponto. Contudo, foi-me impossível não sentir as energias, pensar na minha mãe e o seu inusitado tumor na glândula salivar, a probabilidade de perda e os ódios que me sitiam, no local de trabalho. Uma célere e prolongada lágrima escorreu no meu rosto, a qual disfarcei, encostando a cara ao blusão de X. 
 
No final, a união. Os restantes dezasseis elementos da turma formaram a unidade. Assim construímos uma barragem. Senti-me orgulhoso: quarenta e cinco minutos de uma aula que não foi de matemática mas de currículo oculto.
Na saída da sala de aula, ao despedirem-se de mim, lá fora ouvia: – “X, se precisares de mim estou aqui!”
Não só para X ou Y:  todos ali estaremos, uns para os outros, independentemente do que possa vir a acontecer, tal como já acontece desde o ano letivo anterior.  A rejeição e a discriminação fazem a força.
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10 comentários sobre “A ponte

  1. Maravilhoso texto. Não há palavras a mais nem pessoas a mais.Os sentimentos soltam-se, vivem-se e partilham-se formando esse triângulo onde os ângulos e os lados são iguais.Um abraço. Gostaria de ver mais aulas destas e saber que o grupo está em união plena. Todas as guerras e contrariedades não têm lugar nestes espaços vivos e partilhados.

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  2. Também eu assim o espero, Luís.Estranhamente, não estava a compreender o comportamento instável destes alunos, desde o início do ano, quase sem qualquer interesse. Mas, como sempre, há que dar tempo ao tempo…Abraço meu

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  3. Por detrás da máscara, por vezes à algo bem bonito. Parece que finalmente conseguiste cativar os demónios! ^^Depressa tornar-se-ão teus aliados na terra sem fim onde estás a leccionar! Coragem e não tenhas vergonha de chorar com eles. Eles querem-te aceitar no meio, tens de reagir como eles.Abraço

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