O mutismo da despedida

diário, escrita

   Não raramente, pensei que as despedidas pudessem acontecer dentro desta dimensão planetária. Considerava impreterível a inércia de um corpo e a viagem de uma alma entre mundos opostos, dissipados nas verborreias de uma ou outra crença capaz de em nós soltar o abraço da ténue confiança, tão relevante para a cobardia. Afinal, existem despedidas sem adeus. Despedidas encerradas num mutismo elevado ao sentido da dor. Destino ou consequência fisiológica, assim foi a sua.

                            Fotografia #114 – Nowhere to run de Gonçalo Motta

 


   Neste outono, num dia trivial, solarengo e chuvoso como tantos outros, fez-se silêncio nas percepções do mundo real. Sem aparentar qualquer sofrimento, com o suporte do chão rochoso, eis que aquele ladrar da cadela serra da estrela sinalizou a sua localização. Caída estava, não naquele lugar, não naquele momento… Ao estender a mão ao genro, para a ajudar a levantar-se, a primeira referência: queria uma mão para com ela atravessar o rio que à sua frente corria . Um rio da sua infância, da sua terra natal. Desde então, sucessivas e constantes abordagens ao passado.

   O regresso não mais se fará.

   Quando de novo a encontrar, ainda me reconhecerá?…


Dedicado à minha avó, que agora sei, doente de Alzheimer

 

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12 thoughts on “O mutismo da despedida

  1. Muito lindo. Parabéns pela bela postagem. Segue uma música brasileira que gosto muito e que fala sobre encontros e despedidas.Encontros E Despedidas (Composição: Milton Nascimento Fernando Brant)Mande notícias do mundo de ládiz quem ficaMe dê um abraço, venha me apertartô chegandoCoisa que gosto é poder partirsem ter planosMelhor ainda é poder voltarquando queroTodos os dias é um vai e vema vida se repete na estaçãoTem gente que chega pra ficarTem gente que vai pra nunca maisTem gente que vem e quer voltarTem gente que vai e quer ficar Tem gente que veio só olharTem gente a sorrir e a chorarE assim chegar e partirsão só dois ladosda mesma viagemO trem que chegaé o mesmo trem da partidaA hora do encontroé também despedidaA plataforma dessa estaçãoé a vida desse meu lugaré a vida desse meu lugaré a vida…Um abraço,Roberto, Rio de Janeiro

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  2. Paulofiquei comovido com este teu post tão belo à tua Avó; não vou desejar as suas melhoras, pela irreversibilidade dessa terrível doença. Apenas que ela não sofra muito e força para vocês que a têm que ter, e muita, nesta situação.

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  3. Como um rioSer capaz, como um rioque leva sozinhoa canoa que se cansa,de servir de caminhopara a esperança.E de lavar do límpidoa mágoa da mancha,como o rio que leva,e lava.Crescer para entregarna distância caladaum poder de canção,como o rio decifrao segredo do chão.Se tempo é de descer,reter o dom da forçasem deixar de seguir.E até mesmo sumir,para, subterrâneo,aprender a voltare cumprir, no seu curso,o ofício de amar.Como um rio, aceitaressas súbitas ondasde águas impurasque afloram a escondidaverdade nas funduras.Como um rio, que nascede outros, saber seguir,junto com outros sendoe noutros se prolongandoe construir o encontrocom as águas grandesdo oceano sem fim.Mudar em movimento,mas sem deixar de sero mesmo ser que muda.Como um rio.Thiago de MelloUm beijo carinhoso e cuide bem da vozinha querida.

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  4. Amigos João, Roberto, Teca e Lídiamuito agradeço as vossas palavras.Peço desculpa por só hoje responder mas abrir esta "janela" provoca-me sofrimento e ler as minhas palavras… Por isso, esta é uma publicação que evito.A todos um grande abraço meu.

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  5. … venho por este meio deixar o convite para que visite amanhã . dia 29 de novembro de 2011 . o meu blogue . intemporal … devido a uma celebração . para mim . muito especial … passarei posteriormente . para visitar/comentar a Sua página . como habitual … um abraço … paulo …

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  6. Paulo, subscrevo na íntegra o comentário do pinguim. 😦 As melhoras, nesta doença, são ainda utópicas… 😦 A propósito, no dia 1 de dezembro, aquando do Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, deixei, salvo erro no blogue do pinguim, um comentário em que afirmei que o grande desafio para os investigadores são as doenças degenerativas/neurológicas e o cancro. Tudo quanto "mexa" com o cérebro é um enigma ainda muito grande…És um neto fantástico e um ser humano raro. Admiro-te imenso.Abraço forte e obrigado por partilhares comigo um pouco de ti. ^^

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  7. Sensibilizou-me a tua mensagem, Mark.Esta publicação tenho dificuldade em voltar a ler. Tive tanto medo no período em que a escrevi. E o desconforto?! Que dias…Grande abraço, sensível e grande Mark.

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